"Para se ler e entender é preciso, antes de tudo, gostar de ler e querer entender. Mas antes ainda, é preciso sentir-se autorizado: "eu posso". E quem autoriza é nossa própria subjetividade. Ninguém, além de nós mesmos, pode fazê-lo. Por isso, a necessidade de se trabalhar a subjetivação do sujeito. Fora desse caminho não se formam leitores, muito menos criadores textuais".
O primeiro livro de filosofia que li na vida foi Verdade e Existência, de Jean Paul Sartre, um livrinho (livraço!) de apenas cem páginas, por aí. Até então, jamais havia lido algo tão complexo na vida. Apenas na primeira página demorei quase uma hora para compreender o conteúdo. Ia e voltava nas frases, nos parágrafos e não entendia, quase entendia, de repente compreendia, mas perdia o fio da meada, até que, por fim, entendia uma pequena parte do que o autor estava dizendo.
Finalmente compreendi tudo o que estava escrito naquela primeira folha. E o assunto pareceu-me muito interessante. Então passei à segunda página. Que palavras estranhas, que maneira diferente de juntá-las. Mas ainda mais complicadas, embora desafiadoras, eram as idéias contidas. E lá se foram mais quarenta minutos do meu tempo, naquela segunda página.
Mas estava decidido a continuar. Isso porque ao compreender, finalmente, o significado do que era dito, deparava-me com pensamentos que nunca haviam se passado por minha cabeça, pelo menos não daquela maneira. Descobria ali um mundo incrível! Tudo aquilo mexia muito comigo, levava-me a outros mundos, a uma emocionante aventura intelectual. Sim, ficava emocionado com cada novo conceito que ia descobrindo, com cada pensamento bombástico que caía sobre mim exatamente desse modo: como uma bomba de novas descobertas, novos conhecimentos, novas galáxias, gerando em mim mil novos pensamentos. Pensei até que poderia explodir de emoção, quase não me cabia. Como o pensamento podia chegar tão longe!
Ainda na trigésima página não demorava menos que meia hora para reconhecer tudo o que era dito. Mas lá estava eu, seguindo firme, tresloucado naquele prazer intelectual. Não me lembro se demoraram uns vinte dias para ler aquelas cem páginas. E já emendei num próximo volume: O Discurso do Método, de Descartes. Um pouco menos difícil de se ler que Sartre, mas só um pouco. E o conteúdo me pareceu tão significativo quanto, embora o assunto fosse completamente outro. Eu que até então só havia lido no máximo os livros do Osho, do Roberto Freire e, confesso, do Paulo Coelho... "tinha eu dezoito anos de idade", parafraseando o grande samba de Paulinho da Viola. E me pergunto agora: por que me aventurei, assim tão de repente, a ler os grandes filósofos?
Primeiro, porque autorizei-me a fazê-lo, ainda que as mensagens recebidas do mundo eram de que aquele tipo de conteúdo não poderia ser para todos, mas para alguns "escolhidos", "eleitos"; que bobagem, qualquer um está apto a ler, caso queira. E porque, mais que tudo, descobri o quanto aquilo me tocava, sempre me tocara, embora eu não soubesse que existissem tais caminhos do pensamento. E, finalmente, porque nesses volumes estão contidas algumas das idéias mais extraordinárias que já saíram das mentes humanas. Cada livro desses é como conversar longamente com uma pessoa incrível, incomum, com um grande mestre. Cada um desses livros foi-me revelador. E eles continuam sendo.
Mas ainda tento entender que impulso primeiro foi aquele, de ter iniciado essa ampla e deliciosa jornada do conhecimento. Pois desconfio da resposta: acho que foi pela beleza das palavras. Aquelas palavras estranhas e o jeito incomum com que se misturavam de algum modo tocaram meu coração (eu que delas não tive medo). E pela beleza tão grande quanto, ou ainda maior, do que elas podem gerar ao serem dispostas lado a lado, uma em sequência da outra, inventando, inventando mais que explicando, o mundo. Dizendo de outra maneira: inventando em mim novos mundos, e o meu mundo particular. Nada é mais bonito do se que inventar o mundo, e o próprio mundo, de um jeito único e intransferível, que também significa inventar a própria vida.
Muitas vezes hoje ainda penso: inventar a vida é bom, mas dançar é ainda melhor. Para se dançar, porém, foi preciso que se inventasse a música. O mundo é, portanto, feito de invenções. E, claro, de vento, de mar, de mato, de sexo, que também são muito importantes. Mas... se até o amor romântico foi inventado...no século XII. A semana, no século III. A idéia de progresso, no século XVI. Nossos sofrimentos mais corriqueiros foram inventados há seis mil anos; antes disso eram bem outros. O futuro foi inventado há uns três mil anos. E, finalmente, a palavra, esse código que nos conta quem somos, data de...ah...leia se quiser saber.
O primeiro livro de filosofia que li na vida foi Verdade e Existência, de Jean Paul Sartre, um livrinho (livraço!) de apenas cem páginas, por aí. Até então, jamais havia lido algo tão complexo na vida. Apenas na primeira página demorei quase uma hora para compreender o conteúdo. Ia e voltava nas frases, nos parágrafos e não entendia, quase entendia, de repente compreendia, mas perdia o fio da meada, até que, por fim, entendia uma pequena parte do que o autor estava dizendo.
Finalmente compreendi tudo o que estava escrito naquela primeira folha. E o assunto pareceu-me muito interessante. Então passei à segunda página. Que palavras estranhas, que maneira diferente de juntá-las. Mas ainda mais complicadas, embora desafiadoras, eram as idéias contidas. E lá se foram mais quarenta minutos do meu tempo, naquela segunda página.
Mas estava decidido a continuar. Isso porque ao compreender, finalmente, o significado do que era dito, deparava-me com pensamentos que nunca haviam se passado por minha cabeça, pelo menos não daquela maneira. Descobria ali um mundo incrível! Tudo aquilo mexia muito comigo, levava-me a outros mundos, a uma emocionante aventura intelectual. Sim, ficava emocionado com cada novo conceito que ia descobrindo, com cada pensamento bombástico que caía sobre mim exatamente desse modo: como uma bomba de novas descobertas, novos conhecimentos, novas galáxias, gerando em mim mil novos pensamentos. Pensei até que poderia explodir de emoção, quase não me cabia. Como o pensamento podia chegar tão longe!
Ainda na trigésima página não demorava menos que meia hora para reconhecer tudo o que era dito. Mas lá estava eu, seguindo firme, tresloucado naquele prazer intelectual. Não me lembro se demoraram uns vinte dias para ler aquelas cem páginas. E já emendei num próximo volume: O Discurso do Método, de Descartes. Um pouco menos difícil de se ler que Sartre, mas só um pouco. E o conteúdo me pareceu tão significativo quanto, embora o assunto fosse completamente outro. Eu que até então só havia lido no máximo os livros do Osho, do Roberto Freire e, confesso, do Paulo Coelho... "tinha eu dezoito anos de idade", parafraseando o grande samba de Paulinho da Viola. E me pergunto agora: por que me aventurei, assim tão de repente, a ler os grandes filósofos?
Primeiro, porque autorizei-me a fazê-lo, ainda que as mensagens recebidas do mundo eram de que aquele tipo de conteúdo não poderia ser para todos, mas para alguns "escolhidos", "eleitos"; que bobagem, qualquer um está apto a ler, caso queira. E porque, mais que tudo, descobri o quanto aquilo me tocava, sempre me tocara, embora eu não soubesse que existissem tais caminhos do pensamento. E, finalmente, porque nesses volumes estão contidas algumas das idéias mais extraordinárias que já saíram das mentes humanas. Cada livro desses é como conversar longamente com uma pessoa incrível, incomum, com um grande mestre. Cada um desses livros foi-me revelador. E eles continuam sendo.
Mas ainda tento entender que impulso primeiro foi aquele, de ter iniciado essa ampla e deliciosa jornada do conhecimento. Pois desconfio da resposta: acho que foi pela beleza das palavras. Aquelas palavras estranhas e o jeito incomum com que se misturavam de algum modo tocaram meu coração (eu que delas não tive medo). E pela beleza tão grande quanto, ou ainda maior, do que elas podem gerar ao serem dispostas lado a lado, uma em sequência da outra, inventando, inventando mais que explicando, o mundo. Dizendo de outra maneira: inventando em mim novos mundos, e o meu mundo particular. Nada é mais bonito do se que inventar o mundo, e o próprio mundo, de um jeito único e intransferível, que também significa inventar a própria vida.
Muitas vezes hoje ainda penso: inventar a vida é bom, mas dançar é ainda melhor. Para se dançar, porém, foi preciso que se inventasse a música. O mundo é, portanto, feito de invenções. E, claro, de vento, de mar, de mato, de sexo, que também são muito importantes. Mas... se até o amor romântico foi inventado...no século XII. A semana, no século III. A idéia de progresso, no século XVI. Nossos sofrimentos mais corriqueiros foram inventados há seis mil anos; antes disso eram bem outros. O futuro foi inventado há uns três mil anos. E, finalmente, a palavra, esse código que nos conta quem somos, data de...ah...leia se quiser saber.
Magno Mello