quinta-feira, 10 de julho de 2014

Apresentação

Poética Musical é um estudo inédito no Brasil sobre os elementos, ferramentas e conexões que estruturam uma letra de música.
 
É resultado da análise, ao longo de nove anos, de mais de duas mil letras de canções brasileiras.
 
É ferramenta de análise para diversos tipos de texto, em verso e prosa.
 
Possibilita o desenvolvimento de variados aspectos de construção textual e leitura, entre os quais argumentação, concatenação de ideias, coesão, vocabulário, síntese, sonoridade, ritmo, além de estimular o pensamento crítico e o senso estético, bem como a criatividade e a originalidade.
 
Há mais de seis anos no mercado, em universidades, escolas públicas, centros culturais, secretarias de cultura, unidades do SESC - SP, MG, PE - Oficinas Culturais do Estado de SP, pontos de cultura e outros.

Contemplado com o “Prêmio Interações Estéticas 2010”, Ministério da Cultura/Funarte.


 
 
 
 
 
 

Gênero textual: Letra de Música

Letras de música são uma das formas textuais pré-elaboradas mais absorvidas cotidianamente pela maior parte da população mundial, em especial por jovens e adolescentes.

São construções textuais intencionais, por meio das quais se quer transmitir uma mensagem; e se transmite. Não são apenas textos lúdicos. Carregam mensagens morais, sociais e políticas. São, desse modo, indutores de comportamentos e formadores de opinião. Estabelecem e consolidam novos valores, pensamentos e, possivelmente, fortalecem o senso comum mais que a maioria dos textos cotidianos. E, por fim, podem ser - e são - utilizadas como instrumento de dominação ideológica. Portanto, de modo algum, devem ser assimiladas sem compreensão crítica e sem a observação das gradações de qualidade artística, lexical, semântica, sonora e estrutural.

Quanto a letra de música ser considerada gênero textual não há mais o que se discutir. São incontáveis os casos em que uma letra de canção em nada se assemelha a uma crônica, por exemplo, como tentam argumentar alguns, que a primeira é apenas um prolongamento desta última.

Ainda assim, em variadas situações, letras de música contam histórias, constroem personagens e enredos, passeiam pela crônica e em outros momentos podem ser lidas como poemas. Em alguns casos, são mesmo poemas (de alguns dos nossos maiores poetas de todos os tempos) que foram musicados. Mas, num espectro mais amplo, extrapolam de muitas maneiras os gêneros citados. Por exemplo, podem ser radicalmente distintas de um poema, não apenas por sua, tantas vezes, específica divisão de partes, incluindo aí o refrão, a introdução, a coda, as pontes, como por esse gênero ser o reino absoluto das anáforas e onomatopéias.

São comuns os casos nas letras de canção em que a anáfora - de modo mais amplo, o que chamamos de refrain ou recorrência verbal - é a própria estrutura do texto; muito mais que na poesia. O que em outros gêneros pode ser considerado um perigo para a boa fluência textual, nas letras de música a recorrência constrói vórtices, mundos sonoros e semânticos, e tantas vezes leva a palavra, a expressão e o verso repetidos, a novos entendimentos gramaticais e semióticos.
 

Sobre as tão utilizadas onomatopéias, que em letras de canção ganham possibilidades muito além da mera imitação de sons, pode-se dizer que dependem de escolhas estéticas, sonoras, silábicas, sendo que, em gêneros artístico-literários, forma também pode ser conteúdo.

As métricas de letras de música, em princípio sempre inéditas, também são uma importante característica desse gênero, pois estão indissociadamente ligadas a uma melodia e suas notas de durações preestabelecidas. Desse modo, ao contrário da maioria dos poemas modernos e suas formas livres, as métricas de uma letra de canção sempre são passíveis de identificação, mapeamento e análise, práticas que, sem dúvida, contribuem para o enriquecimento rítmico na produção de qualquer tipo de texto.
 

É também facilmente identificável neste gênero textual outro fenômeno exclusivo, reconhecido pelos trovadores provençais do século XII como "Motz el Son", que é o resultado sonoro da união da sílaba com a nota musical.

Existem ainda, entre outros fenômenos próprios deste gênero, as colagens de versos, de palavras ou mesmo de fragmentos, bem como variadas argumentações e estruturas não lineares. E muito mais que em outros gêneros textuais, rivalizando apenas com a poesia, há a farta presença de linguagens subjetivas, em que o entendimento do texto fica por conta do leitor ou ouvinte.
 

Diferentemente da visão inaugurada a partir da pesquisa de Poética Musical, ainda que exista em dicionário o conceito de cacófato, o estudo de nossa língua não se aprofunda no assunto, em como e o quanto esses fenômenos podem afetar a qualidade de um texto em seus aspectos sonoros, rítmicos e até semânticos, assim como não existem técnicas e exercícios para se detectar sua ocorrência. O mesmo se pode dizer do conceito de "semicacófato", neologismo criado para tornar possível a aferição de um fenômeno que é ainda mais específico, mas tão evidente quanto o cacófato.

No caso das tipologias textuais - narrar, relatar, prescrever, expor e argumentar - previstas no estudo da língua portuguesa, neste trabalho ganham outras e mais ampliadas classificações. Por exemplo, dentro da tipologia narrar, aqui transversalizada com outras tipologias, constam as narrativas imagísticas, cênicas, relacionais, por colagens etc. Os tipos de linguagem também ganham organizações próprias, como linguagem coloquial, metafórica, analógica, subjetiva, entre outras.
 

Além das letras de canções possuírem inúmeros elementos propícios à formação de leitores e produtores de texto mais competentes, podendo ser a mais efetiva ponte para esse fim, embora poucos educadores tenham se dado conta desse potencial, podem também ser utilizadas na educação para se trabalhar aspectos fonológicos, lexicais, morfológicos, morfossintáticos, sintáticos, semânticos e estilísticos da língua, incluindo argumentação, concatenação de idéias, coesão e fenômenos como assonância, aliteração, personificação, paralelismo, polissemia, homonímia, antonímia semântica e lexical, anáfora, eco, antítese, substantivação, oximoro, ironia, homeoteleuto, modulações de timbre, deslocamentos fonossintáticos, paranomásia, hipérbole, eufemismo, pleonasmo e outros.

Tudo isso, num ambiente textual que valoriza a beleza, que dialoga com o tempo presente, tanto no aspecto semântico como no linguístico, e que faz parte, como nenhum outro gênero textual, do cotidiano do aluno. Um tipo de texto que esse aluno muitas vezes conhece de cor, mais que qualquer outro. E, em muitos casos, o único tipo de texto que lhe é afetivo, ao menos num primeiro momento.

Objetivos da Capacitação em Poética Musical para Professores

O objetivo deste curso é possibilitar não somente a aplicação do estudo de Poética Musical no ambiente escolar, como trazer ao professor novas visões educativas a partir de perspectivas lúdicas, criativas e sensíveis para se trabalhar a educação, em especial na formação de leitores e produtores textuais competentes, na construção de um pensamento crítico e independente por parte do aluno, bem como na ampliação de sua subjetividade e capacidade de auto-aprendizagem.
 
Além das práticas e exercícios próprios da Poética Musical foram elaborados sequências e projetos didáticos para se trabalhar de forma mais lúdica, embora não menos pragmática, conteúdos curriculares junto aos alunos. Alguns desses projetos e sequências ainda abrem caminho para a interdisciplinaridade efetiva, questão hoje muito discutida mas ainda pouco aplicada.
 
Outra parte da capacitação é dedicada aos conteúdos das propostas curriculares para a Língua Portuguesa, do MEC e de oito secretarias estaduais, tendo sido o gênero textual Letra de Música conectado em até 70% aos outros gêneros textuais e suas proposições, excetuando a parte gramatical.
 
E outro capítulo pretende sensibilizar professores e alunos para a importância da arte e da cultura, e para a emoção que a leitura e a produção textual competentes podem provocar no indivíduo.
 
O conteúdo específico de Poética Musical será apresentado na primeira parte do curso. A idéia é propiciar ao professor uma base, da qual se partirá para os outros contextos acima e abaixo descritos.
 
Também faz parte do programa a produção de letras de música, visando habilitar os professores para esse tipo de prática junto aos alunos.
 
Trataremos ainda de assuntos relativos à interpretação textual, buscando apresentar ao professor uma ótica que, possivelmente, será vista como contrária às práticas habituais de análise semiótica ou mesmo às interpretações baseadas em suas próprias visões, ou, até, em visões coletivas. Entretanto, tal abordagem certamente contribuirá para a ampliação e multiplicidade do olhar dos educadores, cabendo a cada um, em seguida, tirar suas próprias conclusões acerca das questões.
 
Resta ainda dizer que, neste novo mundo em que vivemos, não apenas o papel do educador mudou e continua mudando de modo profundo, como a própria educação, em especial ao assumir programas de tempo integral - embora não só neste caso - tem se transformado e precisa continuar se transformando, sempre na direção de formar indivíduos mais subjetivados, criativos, sensíveis, colaborativos e auto-aprendentes. É isto que nos exigirão as próximas décadas. E são estes os maiores objetivos de nossa abordagem.

Conteúdo programático do estudo da Poética Musical

Conceitos de criatividade - Rogers, Torrance, Koestler, Hadamard, Barron, Linger.
 
Objetivos: aproximar o participante de seus próprios processos criativos, além do reconhecimento de suas capacidades criativas. Prepará-lo, por meio de processo de “desarmamento cognitivo”, para melhor absorção do conteúdo do curso.
 
Temáticas - originalidade, legitimidade, possibilidades de desdobramento, comunicabilidade, causadores de interesse
 
Objetivos: demonstrar, por meio de exemplos, soluções originais e criativas para o desenvolvimento de temáticas. Apresentar primeiras considerações sobre elaboração textual como objeto de concatenação e organização de idéias, e conjunto de ações interligadas.
 
Ângulos de abordagem - modos de olhar para um mesmo objeto, reorganização gramatical, reorganização semântica e relações
 
Objetivos: reforçar e aprofundar, gradativamente, a multiplicidade do olhar e o processo de concatenação de idéias. Iniciar a demonstração de formas desconstrutivas de se trabalhar com a língua portuguesa e com a linguagem de modo geral.
 
Naturalidade e sonoridade das palavras - cacófatos, semicacófatos, negativas, sílabas colididas, repetição de palavras, ressignificações sonoras, motz el son, ritmo
 
Objetivos: desenvolver o estilo na escrita, a partir, primeiramente, da sonoridade, para maior comunicabilidade textual.
 
Métrica - variação métrica, mapa métrico, reescrevendo sobre métricas existentes, semântica métrica
 
Objetivos: desenvolver noções métricas, para textos em verso, e noções rítmicas, para textos em prosa.
 
Rima - não obrigatoriedade da rima, rimas óbvias, rimas por aproximação sonora, rimas em línguas diferentes entre si, rimas em junções ou separações de palavras, rimas por acentuação
 
Objetivos: desenvolver e ou fortalecer noções de rima para textos em verso. Reconhecimento de processos, tradicionais e modernos, de rima.
 
Coerência
 
1 - Coerência Léxica: ao longo de todo o texto, com relação à imagem sonora e ou semântica, e universos léxicos.
 
Objetivos: reconhecimento de diferentes universos léxicos. Desenvolver formas apropriadas e ou inusitadas para a aplicação de vocabulário em textos e na oralidade. Ampliar possibilidades léxicas).
 
2 - Coerência Semântica: argumentação, romantização, absolutismos, ideologismos, inverdades, ângulos recorrentes
 
Objetivos: desenvolver a argumentação de modo geral e a responsabilidade sobre que se diz, por meio escrito ou oral. Ampliar a compreensão de leitura, a partir do reconhecimento de problemas e métodos retóricos. Fortalecer o pensamento crítico e analítico, bem como a concatenação de idéias. Refinar as aplicações semânticas para cada caso: assunto, linguagem, situacionalidade e diferentes tipos de público. Observar e analisar as tipologias argumentar e expor.
 
3 - Coerência de Continuidade: continuidade em prosa, continuidade em poesia, continuidade em letras de música, textos lineares e não lineares
 
Objetivos: reconhecimento da importância de conectores na elaboração textual. Desenvolver e fortalecer a fluência textual, bem como a distribuição de idéias. Reconhecimento de diferentes formas de continuidade, lineares e não lineares.
 
Clareza Textual - proposições lúdicas, cumplicidade com o ouvinte, leitura subjetiva, gírias, significados herméticos, indicações semânticas
 
Objetivos: reconhecimento de formas e procedimentos que concorrem positivamente e negativamente para a clareza textual. Compreensão crítica, analítica, histórica e estético-formal de textos que se utilizam de linguagem subjetiva, em contraponto à linguagem objetiva.
 
Estruturas Externas - intro, estrofe, ponte, especiais, refrão, refrain, coda
 
Objetivos: reconhecimento dos processos estruturais externos que compõem uma letra de música. Desenvolver, gradativamente, a partir dessas estruturas, habilidades de distribuição de idéias e coesão em textos. Fortalecer o equilíbrio textual.
 
Estruturas Internas - idéia central, mote único, colagem de frases, colagem de palavras, jogos de meias palavras, histórias, biografias
 
Objetivos: fortalecimento da habilidade de concatenar idéias. Reconhecimento mais aprofundado de formas textuais lineares e não lineares, e de composição textual como ações interligadas. Compreensão de características e comportamentos de personagens em histórias.
 
Tipos de Linguagem - direta, metafórica, analógica, alegórica, desconstrutiva, subjetiva
 
Objetivos: reconhecimento de diferentes tipos de linguagem que contribuem para a elaboração textual, podendo todas elas pertencer ao mesmo universo léxico e semântico. Analisar historicamente as transformações e inaugurações de novos tipos de linguagem através dos tempos. Desenvolver e fortalecer a noção de figuras de linguagem. Desenvolver diferentes formas de se relacionar com a linguagem. Observar e analisar a oralidade em textos escritos.
 
Narrativa - reflexiva ou silógica, imagística, cênica, relacional, de relatos
 
Objetivos: reconhecimento das várias formas de narrativas e seus processos históricos. Analisar o surgimento da literatura moderna e do Imagismo. Observar e analisar as tipologias narrar e relatar.
 
Desdobramento de idéias - abstrato, concreto, pontes silógicas, pontes semânticas, pontes léxicas, amarração lógica, afastamento, distâncias irreconciliáveis
 
Objetivos: observar e analisar outros procedimentos de concatenação de idéias. Desenvolver mais profundamente e refinar a concatenação de idéias, criando mapa de desdobramentos e conexões. Fortalecer a coesão textual.
 
Signos invisíveis - psíquicos, sensíveis, pertencimento, associações, auto referência, ideologia, outras referências.
 
Objetivos: observar e analisar símbolos e signos que estão por trás de palavras, proposições e idéias em geral. Criação de mapas ainda mais elaborados de associações semânticas, semióticas, léxicas e sonoras.
 
Estruturação de texto: distribuição de idéias, abertura direta e indireta, conexão, momentos cruciais, tensão e relaxamento, fechamento, sintetização, acabamento
 
Objetivos: observar e analisar outros aspectos textuais, referentes às proposições deste tópico, introduzindo mais pontualmente noções de síntese, pontos de impacto, tensão e relaxamento, fechamento e acabamento.
 
Refrão - pontos de impacto, paralelismo, palavra e onomatopeia, coloquial, onomatopaico, refrain, refrains de passagem, alegórico, pergunta e resposta, retração, tirado do próprio texto, mais de um refrão, impacto em uma palavra
 
Objetivos: observar e analisar aspectos linguísticos como paralelismo, coloquialidade e onomatopeia. Trabalhar, de forma aprofundada, a síntese e o aproveitamento de espaço textual, por meio da utilização de refrãos; por serem esses, geralmente, os pontos de síntese máxima numa letra de música.
 
Título - contido no texto, parcialmente contido no texto, que não aparece no texto
 
Objetivo: intrínseco.
 
Análise Textual – mapa de análise, letras apresentadas pelo ministrante, letras apresentadas pelo participante.
 
Objetivos: analisar textos sob múltiplos aspectos semânticos, léxicos, rítmicos, semióticos, sonoros, sociais, históricos e outros. Aprofundar a relação do estudo com o universo cultural do participante.
 
Indicações de Leitura – literatura e poesia - comentários sobre obras e autores

 

Objetivo: incentivar os professores à leitura, por meio de comentários técnicos e pessoais sobre obras relevantes – observando-se a importância do extremo cuidado na escolha das obras e nos tipos de comentários - e de fornecimento de endereços eletrônicos para aquisição de exemplares em sebos literários, por preços acessíveis.

Formação de leitores e produtores textuais

Letras de música carregam múltiplos elementos propícios à apreciação e compreensão textual. Podem também responder a um amplo espectro de necessidades educativas, não apenas para se trabalhar as mais diversas ferramentas gramaticais da Língua Portuguesa - e para esse fim vêm sendo cada vez mais utilizadas - como para despertar no aluno o interesse por outros gêneros literários, menos próximos de si cotidianamente. Nesse sentido, as letras de canções podem ser uma ponte efetiva para que o aluno descubra os prazeres e interesses aos quais leitores e produtores textuais assíduos geralmente se apegam: beleza estética e semântica, emoção, conhecimento e autoconhecimento.
 
Uma vez inseridas no contexto escolar, as letras de música, portanto, não podem perder seu caráter afetivo, sendo utilizadas como meros exemplos, por mais que esses exemplos estejam agora contextualizados - ao contrário de práticas ainda recentes, que nem mesmo atentavam para a necessidade de contextualização. E de modo algum podem continuar a ser analisadas de forma superficial, somente a partir de interpretações subjetivas do professor e mesmo apenas por meio de análises semióticas. Esse todo construído apresenta elementos como conceituação temática, naturalidade e sonoridade das palavras, reorganizações gramaticais, ritmo, escolhas vocabulares, universos léxicos e semânticos, redes de múltiplas concatenações, léxicas e semânticas, sinonímicas e antonímicas, transversais e radiais, além de continuidade, motz el son, possibilidades de leitura subjetiva, tipos de estruturas, lineares e não-lineares. E ainda, formas de narrativa, por exemplo, por meio de imagens ou de cenas, tipos de linguagem, como linguagem direta, reflexiva, deconstrutiva - assim, sem o "s", formas sintéticas, signos ocultos, somente para citar algumas formas de análise que comumente não são exploradas no ensino escolar. Essa análise mais completa, porém sensível, do que está contido nos textos, além de outros tantos benefícios que serão aqui evidenciados, leva o aluno a perceber as várias maneiras de se olhar para um objeto, enriquecendo, assim, sua forma de pensar e de olhar para o mundo que o cerca. Mas para que esses benefícios de fato alcancem os alunos, os professores precisam conhecer mais a fundo as possibilidades educativas da poética musical.
 
Voltando à questão do mero exemplo, não basta apenas inserir canções e suas letras - o que vale também para o caso de poemas - por mais afetivas que estas possam ser aos alunos, para logo após se fazer análises tecnicistas-gramaticais, ou meramente subjetivas, semióticas, excessivamente cartesianas e racionais, deixando de aproveitar o potencial lúdico, estético, intuitivo e criativo do material apresentado. Este é um exemplo de desafetivação. Perde-se, desse modo, muito rapidamente, o motivo da proposta. Se uma das premissas dessa utilização é o caráter lúdico e afetivo que as letras de música geralmente possuem, não se pode minar essas qualidades ao se tentar construir ou extrair conhecimentos. O que não impede que se façam discussões em torno de idéias e assuntos extraídos de uma letra de canção ou um poema. Mas mesmo nestes casos é importante que antes o aluno absorva ao máximo o conteúdo artístico, lúdico e sensível dos objetos.
 
É, sem dúvida, especial desafio trabalhar conteúdos escolares ao mesmo tempo que se tenta incentivar o gosto pela leitura e pela boa produção de textos, além de sensibilizar o estudante para outras questões semânticas e estéticas, sensíveis e intelectuais.
 
É preciso, portanto, antes de tudo, chamar atenção do educando para a beleza das palavras, para a sonoridade, a estética, o ritmo, para a visão das estruturas, que é base para se enxergar o todo. Deve-se também atrair a sensibilidade do aluno para a construção do pensamento, do pensamento como sentimento, como inteligência, como postura diante do mundo. E para os entrelaçamentos sonoros e semânticos, para as sensações concomitantes, anímicas, físicas, imagísticas que um texto pode despertar. E ainda, para o que podem ser verdades e inverdades numa argumentação, para a ética, para a beleza das sínteses, para as desconstruções gramaticais, que por si mesmas já são uma forma outra de se olhar para o mundo. E, por fim, para o aproveitamento espacial, o equilíbrio, em outras palavras, para tudo que não seja inflexível, que não seja regra, que não esteja pronto, que possa conectar o indivíduo a si mesmo, ligá-lo diretamente às possibilidades de sua subjetividade e criatividade, e fazê-lo querer mergulhar nesse jogo, vivenciá-lo, experimentá-lo, dentro, fora e para além de si.
 
Perceber, por exemplo, o que é um dígrafo num texto, não é experiência de modo algum sensível, subjetiva. A questão já está colocada. A resposta já está dada. É muito diferente, no entanto, a experiência de se descobrir cacófatos e semicacófatos. A não ser em casos mais evidentes, por exemplo, de palavras que, unidas, formam uma terceira palavra, o mapeamento de cacófatos e semicacófatos é uma experiência subjetiva, pois o indivíduo decide o que é ou não o semicacófato ou o cacófato, conquistando ele mesmo a percepção do que pode afetar a qualidade de um texto. E, por isso, mais que uma experiência, essa é uma prática estética.
 
Segundo o paleantropólogo André Leory-Gourban, os primeiros fundamentos da escrita nascem das pinturas rupestres, há trinta mil anos. E já aliados a ela estão o senso estético, o lúdico, o sagrado. Ou seja, o próprio senso estético parece ser o fenômeno inaugural da escrita. É esse lugar, portanto, que precisamos revisitar, a fim de despertar no aluno o desejo de se adentrar nesse universo, que é o próprio formador de suas crenças, de seus prazeres e sofrimentos, de suas vontades. O ser humano é um ser construído em grande parte por palavras, e, muitas delas, escritas. Por que se quer rejeitar o que é tão constituinte de si mesmo? Arrisco-me a dizer que o ensino da língua, como ainda hoje se dá, é algo traumatizante ao aluno.
 
É somente desse modo, portanto, apresentando ao aluno elementos próprios da beleza, a partir de uma proposta efetivamente lúdica e sensível, que se é possível alcançar o máximo rendimento na aplicação das letras de música, e mesmo da poesia, no cotidiano escolar, no sentido de se estabelecer uma relação concreta, afetiva e duradoura entre o aluno e a Língua Portuguesa, em sua forma escrita ou falada.

Interpretação de textos

"Uma das características que empobrecem o ensino médio da língua materna é a pouca atenção reservada ao estudo da significação". ILARI, Rodolfo (2001) Introdução à Semântica. Brincando com a Gramática. São Paulo: Contexto.
 
É o que ainda acontece em todos os graus escolares, do Fundamental I ao ensino universitário. E não bastasse a dificuldade de se analisar os significados em textos objetivos, deparamo-nos hoje também com a linguagem subjetiva, o universo hipertextual e o fortalecimento das imagens como forma de comunicação, ambientes nos quais os significados encontram-se muito mais abertos e não raras as vezes totalmente abertos à interpretação individual. Surge, portanto, a pergunta: como interpretar os significados de um texto? Mas antes de responder a essa questão, há outra mais urgente: o que é significado ou signo em um texto?
 
Para Charles Pierce, o signo, num certo sentido, é algo que "sensibiliza e estimula a consciência". Essa idéia à primeira vista pode nos levar a crer que basta um enunciado sensibilizar ou estimular a consciência e poderá ser chamado de signo. Mas Humberto Eco entende por signo aquilo que “à base de uma convenção social previamente aceita, possa ser entendido como algo que está no lugar de outra coisa“. Esse conceito tende a cercear as possibilidades interpretativas ao nos dizer que um signo, para sê-lo, precisa ser reconhecido por uma comunidade. Embora, apenas para os mais otimistas Eco pareça dar algum espaço à subjetividade ao afirmar que "...cada interpretante não só retraduz o “objeto imediato“ ou conteúdo do signo, mas amplia sua compreensão“. Voltando às idéias de Pierce, agora nas palavras de Isaac Epstein: "um signo é um signo quando há alguém que possa interpretá-lo como signo de algo". Esse argumento reconhece plenamente o sujeito, mas ainda não o capacita a fazer sozinho suas próprias interpretações.
 
Mas, no caso de um texto de linguagem subjetiva, quando não há a intenção de se estabelecer "verdades", ou da interpretação de uma imagem pura e simples, sendo que esses objetos são cada vez mais constantes no cotidiano da recepção de informação e construção de conhecimento,  a que um leitor poderia se apegar semioticamente? Num texto em que há tanto uma possibilidade de leitura quanto outra inversa, ou ainda outras radiais, qual interpretação seria correta? O que o autor quis dizer quando o próprio autor nada pretendeu afirmar, pelo contrário, buscou justamente deixar abertos os significados para que cada indivíduo pudesse interpretar a seu modo, a partir de suas experiências únicas, sua história de vida, formação psíquica e cultural singulares?
 
Isso quer dizer que em muitos casos a interpretação objetiva de um texto pode não ser o mais importante. Sim, existem as bulas de remédio, os manuais, as ciências exatas. Mas há também os romances, os poemas, as letras de canção, as crônicas e ainda os textos comerciais e jornalísticos; diante desses últimos pode ser até arriscado se querer interpretar objetivamente o que está sendo dito. Não podemos, portanto, moldar o pensamento do aluno dessa forma, nem mesmo como estratégia transitória. É preciso preparar e encorajar esse aluno desde cedo para uma leitura independente, fortalecendo ao máximo seu potencial criativo, seu caráter único. É necessário municiá-lo o quanto antes com instrumentos suficientes para que ele possa fazer sua própria leitura de qualquer texto, não apenas imprimindo nisso sua subjetividade, como usando-a para extrapolar os limites semióticos, na direção de trazer à tona novas concepções semânticas e estéticas, no momento da leitura mesma. Essa não é apenas outra possibilidade criativa de se trabalhar com leitura e interpretação, mas a própria maneira como atuam as mentes mais criativas e inovadoras do planeta. Então por que não queremos dar esse passo adiante, preferindo achatar o indivíduo em suas possibilidades interpretativas?
 
A compreensão semiótica, portanto, não pode ser transmitida por meio de módulos prontos. O que deve ser apresentado ao aluno são os componentes de um texto, de uma linguagem ou de uma elaboração silógica, para que ele mesmo aprenda a montar o seu quebra-cabeça. Ao contrário do que pode parecer, essa é uma estratégia anticartesiana. O que aqui está sendo dito é que não há como se interpretar um texto, especialmente os de caráter mais artístico, separando suas partes, esmiuçando seus sentidos um a um, pois aí se perdem as absorções sensíveis, afetivas, subjetivas e criativas. A semiótica, usada dessa forma cartesiana, no ato da leitura, tende a inibir o que só o sentimento pode traduzir ou mesmo significar. A essência de uma obra artística não será revelada desse modo analítico fragmentado. Na hora da leitura nenhuma análise deverá ser feita, a não ser para se inferir criativamente, quando são geradas novas idéias no passo mesmo dessa leitura. E o aluno deve estar pronto para isso. Deve receber antecipadamente e também de modo mais sensível possível toda a instrução necessária sobre o que pode estar contido nos textos, sobre os sons, as estruturas e os sentidos. Isso deve ser feito se ouvindo música, em rodas de conversa, não no momento da leitura. Deve ser feito para levar o aluno à leitura e não dela se afastar. Do contrário, já deveríamos ter mais leitores no país, não apenas capacitados a ler e escrever, como afetivamente inclinados a esses atos.
 
Enfim, não se pode ensinar a interpretar pois não há aprendizado nisso. Não no sentido de se aprender a aprender, aprender a criar, aprender a transformar. Quanto à falta de percepção diante de um discurso enganador, por exemplo, de um político ou de uma propaganda, é algo que pode estar muito mais ligado à pouca independência de pensamento do que a uma suposta ignorância semiótica. E enquanto as interpretações estiverem nas mãos de apenas alguns, como sempre estiveram, haverá continuidade de domínio ideológico, por menos ideológica que pretenda ser qualquer espécie de análise.
 
Ainda segundo Epstein: "A experiência vivida, o real sentido, percebido ou compreendido, o mundo do real ou do imaginário, das teorias científicas ou dos mitos, enfim, da vigília ou do sonho, é mediado de homem a homem por entes concretos capazes de impressionar nossos sentidos: os signos". Aqui sim, temos a confirmação de que signos não são necessariamente verdades objetivas. Portanto, não podem e não devem ser lidos desse modo. Não se diz aqui de maneira alguma que o diálogo deve ser atenuado para se dar espaço a toda subjetividade e individualidade. Pelo contrário, esse deve ser estimulado de muitas formas, apenas com a observação de que daí não se estabeleçam verdades absolutas, respeitando assim as diferenças, que podem ser gerais, sem qualquer prejuízo para o comunitário. Reconhecer e respeitar as diferenças é o mais puro exercício de flexibilização e tolerância humanas, é de fato saber viver em grupo, é algo que devíamos ter feito desde o começo das sociedades.
 
Últimas considerações sobre interpretação de texto
 
"Acho detestável...a prática da interpretação de texto. Eu me sinto ofendido quando alguém tenta interpretar meu texto...O que a Cecília Meireles queria dizer? Agora, graças à gramática, à hermenêutica, vamos dizer o que a Cecília quis dizer. Mas um poeta nunca queria dizer, ele disse. Está dito...Se eu quisesse dizer aquilo, teria dito aquilo e não o que eu disse". (Rubem Alves - em entrevista)
 
"A resposta a um texto não é interpretação, é um outro texto. O que você perguntaria provocado por esse texto?" (Octávio Paz)
 
Quanto à questão da interpretação de textos, essa prática indiscutivelmente cartesiana de fragmentação do todo, resta apenas uma coisa a ser dita; ou apenas reforçada: na leitura textual não se deve interferir, esse é o espaço da subjetividade, do olhar individualizado, da valiosa leitura que uma só pessoa no mundo pode fazer. A leitura é, portanto, o lugar do encontro consigo mesmo, o momento de se compreender a multiplicidade concomitante, a beleza em tempo real, essa que ensina para muito além do que supostamente é o mundo, mas o que somos, quem somos neste mundo. Essa concomitância da integralidade do texto, no que diz respeito à sonoridade, ao ritmo, às imagens que vão se formando em nossas cabeças ou no sentimento, é algo que não se pode perder no momento da leitura, sob nenhum pretexto a favor da interpretação semântica fragmentada. Uma coisa é se chamar a atenção para os elementos já citados. Outra, muito diferente, é tratar o leitor como eterno dependente da interpretação de terceiros. Ninguém, por mais intelectualmente preparado, está autorizado a ler pelo outro. Essa é a primeira artimanha da dominação ideológica e deve ser banida do processo educacional, bem como de qualquer aprendizado ou desenvolvimento cognitivo.

Ritmo textual

Um texto muitas vezes começa pelo ritmo, pela métrica que nos alcança, vinda não se sabe de onde, mas exigindo palavras. As palavras, por sua vez, em princípio ilhas de sonoridade, passam a exigir sentidos. Pois é dessa maneira que também se iniciam livros, poemas, crônicas, letras de canção e até relatórios.
 
Este é, portanto, um fenômeno estético, quase uma sensação física, essa dança de pré-palavras vindas de um lugar desconhecido que muitas vezes entendemos como inspiração, e alguns pesquisadores da criatividade entendem como pré-disposição a combinações aleatórias até que algo faça sentido. Mas seja qual for o caso, é importante que saibamos: é possível alimentar, enriquecer, potencializar esse "lugar" com elementos e percepções rítmicas, bem como com outros tantos elementos que participam da criação textual. O que, sem dúvida, só fará aumentar nossa capacidade criativa.
 
 
Podemos dizer, num certo sentido, que o ritmo contém a métrica, inicia-se nela, mas a ultrapassa. Especialmente nos casos de textos em prosa, quando essa métrica perde quase toda sua visibilidade estrutural e torna-se a própria respiração do texto, embora continue influenciando em alto grau a comunicabilidade e a atratividade do que é escrito. Estando o ritmo num texto de algum modo empobrecido ou acidentado, perde-se muito a qualidade do que é dito.
 
Para os dois casos, tanto de se iniciar um texto por influência do ritmo, como se ter domínio desse ritmo para melhor comunicar um enunciado, a percepção e a absorção de métricas de letras de música e poemas são maneiras lúdicas, sensíveis e afetivas de se potencializar essas capacidades. Isso, porque, esses gêneros textuais apresentam não apenas incontáveis exemplos das mais variadas metricidades, mas ainda de momentos em que a métrica, visível, vai se transformando em ritmo, já algo invisível aos olhos, mas sempre perceptível ao senso estético e mesmo ao entendimento físico, especialmente quanto à fluidez e às nuances de respiração do texto.
 
 
Com letras de música e poemas é possível até se contar "histórias métricas", de forma lúdica e divertida. Essa brincadeira pode ser feita isolando-se a métrica de um texto, retirando-se as palavras, mas ainda se mantendo a parte rítmica. E depois comunicar essa rítmica como quem lê um texto qualquer, mas com o uso de somente uma única consoante escolhida, de preferência uma consoante de ataque, por exemplo, um T. Ou seja, um T substituindo cada sílaba; ou sílaba melódica. Além de neste caso se ter a visualização apenas da métrica contida no texto, em cada verso, em cada estrofe e na estrutura do texto como um todo, a brincadeira ainda se estende para um jogo de inflexão sonora. Uma simples brincadeira como essa enriquece nossa visão rítmica sobre um texto, qualquer texto; embora seja este apenas um pequeno exemplo.
 
Pois é essa noção que compreende e percebe, estética e fisicamente, a métrica e o ritmo, que se há também de desenvolver no indivíduo produtor de escrita. Esses elementos, além do elemento sonoro, são os pilares da escrita e da própria fala, antes de qualquer proposição semântica que se queira enunciar, antes de qualquer construção gramatical, e antes até da palavra, pois nossa noção de som e de ritmo é anterior à linguagem falada, e, de muitos modos, base para sua existência. Sem esses elementos, portanto, não há argumento que bem se sustente, também por ser o indivíduo humano esse complexo, pragmático e lógico, mas não menos lúdico e sensível receptor e comunicador de informações. A própria linguagem  é uma construção lúdica, emocional e, mais que isso, jamais está pronta. É sempre, e está sempre por ser, reinaugurada em si mesma, e com isso inventando, reorganizando e redimensionando novos sentidos e desejos, novas visões e cognições, novos mundos, dentro e fora de nós. E, assim como seus enunciados semânticos e suas construções gramaticais, e estéticas, suas possibilidades rítmicas são infinitas.
 
 
Por fim, se na produção textual, como dissemos, a métrica e o ritmo têm esse papel também sedutor, atrativo, essa mesma atratividade estará presente no momento da leitura. Portanto, uma vez que se potencialize tal sensibilidade no indivíduo, certamente haverá nisso alguma contribuição para a formação de mais leitores. Ou seja, torna-se o ritmo um elemento a mais para aproximar esse indivíduo da leitura. E qualquer leitor mais assíduo sabe ser esta afirmação uma realidade.