quinta-feira, 10 de julho de 2014

Poética Musical e o ensino da Língua Portuguesa

"Atualmente, buscando a renovação da disciplina Língua Portuguesa, muitos se voltam para os gêneros textuais. “Temos de trabalhar os gêneros!” tornou-se parte do discurso corrente na escola. No entanto, vale o alerta: sem conhecer bem o tema, trabalhar com gêneros pode trazer mais problemas do que soluções." (parágrafo das as Propostas Curriculares para Língua Portuguesa da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, 2012).

As propostas curriculares para Língua Portuguesa do MEC e de Secretarias Estaduais de Educação orientam para que sejam estudadas as letras de música na educação básica.

Vejamos, como exemplo, as propostas curriculares da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, 2012:

Quadro de conteúdos e habilidades em Língua Portuguesa

 
5a- série/6o- ano do Ensino Fundamental

 
2° bimestre

 
Conteúdos gerais

 
- Gênero textual letra de música

 
- Leitura, produção e escuta de crônica narrativa, letra de música e outros gêneros em diferentes situações de comunicação

 
Habilidades

 
- Reconhecer traços característicos do gênero letra de música.

 
Sendo, portanto, o gênero textual Letra de Música abordado no currículo escolar de educação básica, apresentado e tratado pelos professores junto aos seus alunos, sendo esse gênero talvez o mais absorvido cotidianamente pela maior parte da população mundial, a todo tempo, nas ruas, em shoppings centers, na internet, em conteúdos móveis e fixos, em novelas, filmes, seriados, documentários, programas de variedades, ou mesmo apenas musicais, entre outros conteúdos televisivos ou cinematográficos, também nos jingles da maioria das propagandas comerciais em rádios e tvs, nas festas populares, em shows, festivais, nas escolas, nos hinos, em cantigas de ninar, em salas de espera e em tantos outros locais, sendo também esse gênero possuidor de todos ou quase todos os elementos gramaticais e estruturais presentes em todos os outros gêneros textuais, sendo ainda esse tipo de texto também possuidor de mensagens ideológicas, comunicadoras e indutoras de comportamento, de consumo, bem como leitor social dos mais versáteis e atualizados, além de ser frequentemente utilizado como instrumento de dominação ideológica, sendo, em outro sentido, um dos mais vastos e preciosos acervos da cultura nacional, ligado aos mais diversos momentos históricos e sociais do país, e sendo, por fim, portador de especificidades únicas em relação a outros tipos de textos, o que, a despeito da resistência de alguns setores acadêmicos mais conservadores, acaba, de forma irrefutável, por lhe conferir o caráter de gênero textual, enfim, se é verdade sobre o gênero textual Letra de Música tudo o que aqui se coloca, como pode seu estudo ainda não constar e ou não ser obrigatório no curso de Letras das universidades e faculdades brasileiras?

Exceto por abordagens sobre conteúdos semânticos e aspectos gramaticais, entre outras poucas possibilidades, como podem os professores de educação básica trabalhar junto aos seus alunos um gênero textual (indicado pelos próprios órgãos de educação) que em geral conhecem tão pouco, especialmente quanto aos seus mais específicos elementos e ferramentas constituintes?

Os mesmos órgãos que recomendam tal abordagem escolar, chamam atenção para as leis e prerrogativas que a norteiam, conforme veremos logo abaixo. E, conforme apresentado no início de nossas considerações, chamam também atenção para os perigos de qualquer abordagem sem que se tenha conhecimento da matéria.

Outras considerações
 
*Os trechos entre aspas e em itálico também encontram-se nas Propostas Curriculares para Língua Portuguesa do Ensino Fundamental Ciclo 2 e do Ensino Médio da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

"Para o trabalho escolar com textos, torna-se necessário compreender tanto as características estruturais (ou seja, como o texto é feito) como as condições sociais de produção e recepção, para refletir sobre sua adequação e funcionalidade."
 
"GÊNERO: Evento linguístico social que organiza os textos a partir de características sociossemióticas: conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição estrutural."

"A lei determina corretamente que a relação entre teoria e prática se dê em cada disciplina do currículo, uma vez que boa parte dos problemas de qualidade do ensino decorre da dificuldade em destacar a dimensão prática do conhecimento, tornando-o verbalista e abstrato."

Neste momento tornam-se inadiáveis as seguintes perguntas: como, quando e onde os professores estudam as estruturas e o funcionamento de uma letra de música? Com que propriedade fazem trabalhos práticos junto aos seus alunos, ou mesmo análises técnicas e estruturais mais aprofundadas? Que lastros culturais e formais possuem acerca dos estilos, ritmos, compositores e intérpretes, contextos históricos, além dos produtos e obras propriamente ditos, aos quais as letras das canções, de modo indissociável, estão atreladas?

Sobre os parágrafos a seguir podemos dizer que as letras de música, conforme será detalhado mais à frente, possuem não apenas especificidades únicas, como subvertem e ou reorganizam de muitos modos as previsões gramaticais, a partir de descontinuidades temporais, narrativas não-lineares, colagens de palavras, versos e fragmentos silábicos, além variadas hipertextualidades, criando com isso novas e interessantes perspectivas de como lidar com a língua em sua forma oral e ou escrita. Mas os professores precisam conhecer mais profundamente essas ocorrências.

"Há estruturas que surgem das relações entre as frases, entre os parágrafos e, até, entre os textos de que a gramática tradicional não dá conta, e tais estruturas merecem abordagem no cotidiano escolar."

"O caráter linear dos textos verbais deverá conviver com o caráter reticular dos hipertextos eletrônicos, como, aliás, acontece em leituras de jornais impressos, em que os olhos “navegam” por uma página, ou por várias delas, aos saltos e de acordo com nossas intenções, libertos da continuidade temporal."

Pelo fato de haver pouco conhecimento dos professores também em relação às possibilidades desse gênero textual para o desenvolvimento cognitivo e humano, o trabalho com letras de música nas escolas não apenas pode ser gerido de muitas maneiras pouco refletidas, equivocadas e até irresponsáveis, como sua utilização ainda é tímida, apesar do gênero apresentar  características especiais, que em muitos momentos coincidem, como poucos, com propostas curriculares atuais.

Em consonância com os próximos trechos das propostas curriculares, serão apresentadas mais à frente considerações objetivas de como o gênero textual Letra de Música está profundamente inserido no cotidiano do aluno, de como pode afetar seu comportamento, além de sua relação com o professor, do quanto esse gênero é uma das mais atualizadas ferramentas de leitura social e linguística, e de como esse tipo de texto pode ser utilizado na educação para gerar benefícios múltiplos, entre eles, o de aproximar o aluno da leitura e da língua portuguesa, e desenvolver produtores textuais mais competentes.

"Em todas as séries, a valorização de interfaces entre o conhecimento reflexivo de conteúdos linguísticos e literários e o cotidiano cultural em que o aluno está inserido. O objetivo é que tais conteúdos sejam não apenas “passados”, mas que se tornem objeto de constante reflexão."
 
"Como desenvolver apropriadamente as habilidades que promovem a relação do aluno com um determinado gênero se sua leitura e escrita não fazem parte do cotidiano?"
 
"Preparar os indivíduos para o diálogo constante com a produção cultural, num tempo que se caracteriza não pela permanência, mas pela constante mudança – quando o inusitado, o incerto e o urgente constituem a regra –, é mais um desafio contemporâneo para a educação escolar."
 
"Currículo é a expressão do que existe na cultura científica, artística e humanista transposto para uma situação de aprendizagem e ensino."

Os órgãos de educação também indicam, de modo crescente, o trabalho com materiais lúdicos, criativos e que possibilitem maior grau de fruição estética, entre outros fatores, associando-os diretamente como ferramentas propícias para atender as necessidades de tornar o aluno sujeito autônomo, de maior visão cultural e auto-aprendente, estando essas características entre as principais prerrogativas da educação para as próximas décadas.

"Tomado como valor de conteúdo lúdico, de caráter ético ou de fruição estética, numa escola de prática cultural ativa, o conhecimento torna-se um prazer que pode ser aprendido ao se aprender a aprender."

"A autonomia para gerenciar a própria aprendizagem (aprender a aprender) e para a transposição dessa aprendizagem em intervenções solidárias (aprender a fazer e a conviver) deve ser a base da educação das crianças, dos jovens e dos adultos, que têm em suas mãos a continuidade da produção cultural e das práticas sociais."

"Construir identidade, agir com autonomia e em relação com o outro, bem como incorporar a diversidade, são as bases para a construção de valores de pertencimento e de responsabilidade, essenciais para a inserção cidadã nas dimensões sociais e produtivas."

Outras situações

Outras situações escolares para as quais torna-se necessária a aquisição de conhecimentos técnicos por parte do professor (ainda como consta nas propostas curriculares da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

 
"7a- série/8o- ano do Ensino Fundamental

 
1º- Bimestre

 
Conteúdos

 
- Construção de projeto publicitário"

 
O jingle publicitário é um das mais recorrentes ferramentas de uma campanha publicitária em rádio ou TV. Nesse sentido, há sempre uma letra de música a ser produzida e analisada. 

 
"1a- série do Ensino Médio

 
1º- Bimestre

 
Conteúdos

 
Poema: diferenças entre verso e prosa

 
3° Bimestre

 
- Reconhecer, em contos, entrevistas e poemas, marcas linguísticas que singularizam os diferentes gêneros."

 
A questão agora torna-se a seguinte: sendo a Letra de Música um gênero textual, tratado como tal nas propostas curriculares, e sendo indicada pelos órgãos públicos de educação sua abordagem escolar, por que não deveria ser esse gênero obrigatoriamente investigado, bem como analisado junto aos outros gêneros, quanto às marcas linguísticas que o singularizam?

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