"Atualmente,
buscando a renovação da disciplina Língua Portuguesa, muitos se voltam para os
gêneros textuais. “Temos de trabalhar os gêneros!” tornou-se parte do discurso
corrente na escola. No entanto, vale o alerta: sem conhecer bem o tema,
trabalhar com gêneros pode trazer mais problemas do que soluções." (parágrafo das as
Propostas Curriculares para Língua Portuguesa da Secretaria de Educação do
Estado de São Paulo, 2012).
As propostas curriculares para Língua Portuguesa do
MEC e de Secretarias Estaduais de Educação orientam para que sejam estudadas as
letras de música na educação básica.
Vejamos, como exemplo, as propostas curriculares da
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, 2012:
Quadro de
conteúdos e habilidades em Língua Portuguesa
2° bimestre
Conteúdos gerais
- Leitura, produção e
escuta de crônica narrativa, letra de música e outros gêneros em diferentes
situações de comunicação
Habilidades
- Reconhecer traços característicos do gênero letra de música.
Sendo, portanto, o gênero textual Letra de Música
abordado no currículo escolar de educação básica, apresentado e tratado pelos
professores junto aos seus alunos, sendo esse gênero talvez o mais absorvido
cotidianamente pela maior parte da população mundial, a todo tempo, nas ruas,
em shoppings centers, na internet, em conteúdos móveis e fixos, em novelas,
filmes, seriados, documentários, programas de variedades, ou mesmo apenas
musicais, entre outros conteúdos televisivos ou cinematográficos, também nos
jingles da maioria das propagandas comerciais em rádios e tvs, nas festas
populares, em shows, festivais, nas escolas, nos hinos, em cantigas de ninar,
em salas de espera e em tantos outros locais, sendo também esse gênero
possuidor de todos ou quase todos os elementos gramaticais e estruturais
presentes em todos os outros gêneros textuais, sendo ainda esse tipo de texto
também possuidor de mensagens ideológicas, comunicadoras e indutoras de
comportamento, de consumo, bem como leitor social dos mais versáteis e
atualizados, além de ser frequentemente utilizado como instrumento de dominação
ideológica, sendo, em outro sentido, um dos mais vastos e preciosos acervos da
cultura nacional, ligado aos mais diversos momentos históricos e sociais do
país, e sendo, por fim, portador de especificidades únicas em relação a outros
tipos de textos, o que, a despeito da resistência de alguns setores acadêmicos
mais conservadores, acaba, de forma irrefutável, por lhe conferir o caráter de
gênero textual, enfim, se é verdade sobre o gênero textual Letra de Música tudo
o que aqui se coloca, como pode seu estudo ainda não constar e ou não ser
obrigatório no curso de Letras das universidades e faculdades brasileiras?
Exceto por abordagens sobre conteúdos
semânticos e aspectos gramaticais, entre outras poucas possibilidades,
como podem os professores de educação básica trabalhar junto aos seus alunos um
gênero textual (indicado pelos próprios órgãos de educação) que em geral
conhecem tão pouco, especialmente quanto aos seus mais específicos elementos e
ferramentas constituintes?
Os mesmos órgãos que recomendam tal abordagem
escolar, chamam atenção para as leis e prerrogativas que a norteiam, conforme veremos
logo abaixo. E, conforme apresentado no início de nossas considerações, chamam
também atenção para os perigos de qualquer abordagem sem que se tenha
conhecimento da matéria.
Outras considerações
*Os trechos entre aspas e em itálico também
encontram-se nas Propostas Curriculares para Língua Portuguesa do Ensino
Fundamental Ciclo 2 e do Ensino Médio da Secretaria de Educação do Estado de
São Paulo.
"Para o trabalho
escolar com textos, torna-se necessário compreender tanto as características
estruturais (ou seja, como o texto é feito) como as condições sociais de
produção e recepção, para refletir sobre sua adequação e funcionalidade."
"GÊNERO: Evento
linguístico social que organiza os textos a partir de características
sociossemióticas: conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição
estrutural."
"A lei determina
corretamente que a relação entre teoria e prática se dê em cada disciplina do
currículo, uma vez que boa parte dos problemas de qualidade do ensino decorre
da dificuldade em destacar a dimensão prática do conhecimento, tornando-o
verbalista e abstrato."
Neste momento tornam-se inadiáveis as seguintes
perguntas: como, quando e onde os professores estudam as estruturas e o
funcionamento de uma letra de música? Com que propriedade fazem trabalhos
práticos junto aos seus alunos, ou mesmo análises técnicas e estruturais mais
aprofundadas? Que lastros culturais e formais possuem acerca dos estilos,
ritmos, compositores e intérpretes, contextos históricos, além dos produtos e
obras propriamente ditos, aos quais as letras das canções, de modo
indissociável, estão atreladas?
Sobre os parágrafos a seguir podemos dizer que as
letras de música, conforme será detalhado mais à frente, possuem não apenas
especificidades únicas, como subvertem e ou reorganizam de muitos modos as
previsões gramaticais, a partir de descontinuidades temporais, narrativas
não-lineares, colagens de palavras, versos e fragmentos silábicos, além
variadas hipertextualidades, criando com isso novas e interessantes perspectivas
de como lidar com a língua em sua forma oral e ou escrita. Mas os professores
precisam conhecer mais profundamente essas ocorrências.
"Há estruturas que
surgem das relações entre as frases, entre os parágrafos e, até, entre os
textos de que a gramática tradicional não dá conta, e tais estruturas merecem
abordagem no cotidiano escolar."
"O caráter linear
dos textos verbais deverá conviver com o caráter reticular dos hipertextos
eletrônicos, como, aliás, acontece em leituras de jornais impressos, em que os
olhos “navegam” por uma página, ou por várias delas, aos saltos e de acordo com
nossas intenções, libertos da continuidade temporal."
Pelo fato de haver pouco conhecimento dos
professores também em relação às possibilidades desse gênero textual para o
desenvolvimento cognitivo e humano, o trabalho com letras de música nas escolas
não apenas pode ser gerido de muitas maneiras pouco refletidas, equivocadas e
até irresponsáveis, como sua utilização ainda é tímida, apesar do gênero
apresentar características especiais,
que em muitos momentos coincidem, como poucos, com propostas curriculares
atuais.
Em consonância com os próximos trechos das
propostas curriculares, serão apresentadas mais à frente considerações
objetivas de como o gênero textual Letra de Música está profundamente inserido
no cotidiano do aluno, de como pode afetar seu comportamento, além de sua
relação com o professor, do quanto esse gênero é uma das mais atualizadas
ferramentas de leitura social e linguística, e de como esse tipo de texto pode
ser utilizado na educação para gerar benefícios múltiplos, entre eles, o de
aproximar o aluno da leitura e da língua portuguesa, e desenvolver produtores
textuais mais competentes.
"Em todas as
séries, a valorização de interfaces entre o conhecimento reflexivo de conteúdos
linguísticos e literários e o cotidiano cultural em que o aluno está inserido.
O objetivo é que tais conteúdos sejam não apenas “passados”, mas que se tornem
objeto de constante reflexão."
"Como desenvolver apropriadamente as habilidades que promovem a
relação do aluno com um determinado gênero se sua leitura e escrita não fazem
parte do cotidiano?"
"Preparar os
indivíduos para o diálogo constante com a produção cultural, num tempo que se
caracteriza não pela permanência, mas pela constante mudança – quando o
inusitado, o incerto e o urgente constituem a regra –, é mais um desafio
contemporâneo para a educação escolar."
"Currículo é a
expressão do que existe na cultura científica, artística e humanista transposto
para uma situação de aprendizagem e ensino."
Os órgãos de educação também indicam, de modo
crescente, o trabalho com materiais lúdicos, criativos e que possibilitem maior
grau de fruição estética, entre outros fatores, associando-os diretamente como
ferramentas propícias para atender as necessidades de tornar o aluno sujeito
autônomo, de maior visão cultural e auto-aprendente, estando essas
características entre as principais prerrogativas da educação para as próximas
décadas.
"Tomado como valor
de conteúdo lúdico, de caráter ético ou de fruição estética, numa escola de
prática cultural ativa, o conhecimento torna-se um prazer que pode ser
aprendido ao se aprender a aprender."
"A
autonomia para gerenciar a própria aprendizagem (aprender a aprender) e para a
transposição dessa aprendizagem em intervenções solidárias (aprender a fazer e
a conviver) deve ser a base da educação das crianças, dos jovens e dos adultos,
que têm em suas mãos a continuidade da produção cultural e das práticas
sociais."
"Construir
identidade, agir com autonomia e em relação com o outro, bem como incorporar a
diversidade, são as bases para a construção de valores de pertencimento e de
responsabilidade, essenciais para a inserção cidadã nas dimensões sociais e
produtivas."
Outras situações
Outras situações escolares para as
quais torna-se necessária a aquisição de conhecimentos técnicos por parte do
professor (ainda
como consta nas propostas curriculares da Secretaria da Educação do Estado de
São Paulo
"7a- série/8o- ano
do Ensino Fundamental
Conteúdos
- Construção de projeto
publicitário"
O jingle publicitário é um das mais recorrentes
ferramentas de uma campanha publicitária em rádio ou TV. Nesse sentido, há
sempre uma letra de música a ser produzida e analisada.
"1a- série do Ensino
Médio
1º- Bimestre
Conteúdos
Poema: diferenças entre
verso e prosa
3° Bimestre
- Reconhecer, em contos,
entrevistas e poemas, marcas linguísticas que singularizam os diferentes
gêneros."
A questão agora torna-se a seguinte: sendo a Letra
de Música um gênero textual, tratado como tal nas propostas curriculares, e
sendo indicada pelos órgãos públicos de educação sua abordagem escolar, por que
não deveria ser esse gênero obrigatoriamente investigado, bem como analisado
junto aos outros gêneros, quanto às marcas linguísticas que o singularizam?
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