A música faz sentido por si só.
Não precisa ser canção, não precisa ser acompanhada de uma letra para fazer
sentido. Faz sentido, mesmo num mundo em que tudo o que sempre fez sentido, vem
hoje sendo questionado. Valores, antes considerados eternos, absolutos,
imutáveis, em outras palavras, muitas de nossas supostas verdades, que
construíram nossa civilização, estão em cheque.
A arte, no entanto, e aqui mais
especificamente a música, sobrevive como verdade em si mesma e, mais do que
isso, como verdade humana. Quanto à plena legitimidade do dinheiro, do futuro e
do passado, ou mesmo do que é bom ou ruim, certo ou errado, já não estamos bem
certos. Mas, por mais que a música passe por momentos considerados
"melhores ou piores", coisa difícil de se compreender em toda sua
extensão, ainda assim não perde sua legitimidade. Há quem diga que poucas
coisas além da arte sobreviverão como verdades inquestionáveis, exatamente por
ser essa uma das mais ricas, íntimas, complexas e grandiosas manifestações da
aventura humana, que atua de múltiplas formas sobre o indivíduo, inclusive para
além de seus estados conscientes. É onda sonora, mas é também signo, não
necessariamente explicável em palavras ou imagens, ou outra coisa racionalmente
compreensível. Mas ainda assim, significa, ou seja, faz sentido. E embora,
paradoxalmente, só seja compreensível por ser lógica, por ser matemática, o
resultado dessa matemática inaugura algo misterioso, sensível, algo que no fim
das contas ultrapassa a razão e tantas vezes, incide sobre nosso ser mais
antropológico, mais intuitivo.
Algo que imagino todos sabermos é
que a música tende a sensibilizar o indivíduo. E nesse sentido podemos dizer,
antes de tudo, que essa sensibilização coloca-o no presente, no agora, no
momento em que a vida acontece. Coloca esse indivíduo, portanto, mais
consciente de si mesmo e do mundo a sua volta, ou seja, tende a desaliená-lo. A
cada vez que isso acontece, novas "notícias", pessoais e sociais, vêm
a tona, mesmo quando o indivíduo não se dá conta. De algum modo, portanto, o
faz refletir, questionar sobre a ordem das coisas como se apresentam. O que vai
na direção contrária ao entretenimento puro e simples, que tende a manter as
coisas como são, geralmente trazendo apenas o conforto do descanso e do
esquecimento, de si próprio e do mundo.
Mas por que a necessidade de
transformação? Porque o mundo não está pronto, nunca esteve. Porque o mundo e a
vida só fazem sentido se esse sentido for construído, tarefa que tantas vezes
deixamos nas mãos de outros, que acabam por construir seus próprios sentidos e
convicções por nós e sobre nós, no final dominando-nos.
Então, fazer música, fazer arte,
tocar um instrumento, é não se deixar ser dominado por outros. Pelo menos não
tão facilmente. E com mais uma grande vantagem: é permitir-se ser dominado pela
beleza, essa mais profunda, que em outros tempos estava diretamente associada
ao bem. Na Idade Antiga a beleza constava no estudo da Ética e da Lógica. Nos
pensamentos de Platão e Aristóteles, o belo, o bom e o verdadeiro eram uma
mesma unidade. A beleza era, portanto, valor moral. Somente na Idade Média
começou-se a estudar a beleza - em especial a estética - separadamente das
outras filosofias.
Se a beleza traz mais
subjetividade ao indivíduo - e traz, conforme já dito, ao colocá-lo em contato
mais direto consigo - é de se supor que também traga mais autoconhecimento. E
não é difícil deduzir que o indivíduo, melhor se compreendendo, tende a
compreender melhor o próximo, em suas questões, suas dores e alegrias, suas
forças e fragilidades, enfim, em sua condição humana. E essa mais compreensão
tende a se traduzir em mais compaixão.
Resta ainda um último aspecto: a
educação musical, no sentido do consumo da música, das escolhas sobre o que ouvimos
cotidianamente, na ampliação da nossa capacidade de absorver qualquer tipo de
música, inclusive músicas ou gêneros a nós ainda desconhecidos ou de nós mais
distantes.
A maior parte da população
apresenta clara resistência em ouvir algo diferente de seu cardápio básico,
especialmente qualquer música considerada própria de uma suposta elite
cultural.
Isso parece também estar ligado ao
que podemos chamar de "cultura de pertencimento". A música difundida
pelos veículos de comunicação em massa é também recebida por essa população
como um convite à inclusão social, ao pertencimento a determinados grupos
sócio-culturais-ideológicos que, de muitos modos, prometem ser portos-seguros
sociais, morais e até existenciais. A difusão é feita justamente com esse propósito
aglutinador, para formação e manutenção dos rebanhos de consumo. Essa adesão se
dá, antes de tudo, por um medo-da-solidão que se tem quando se pensa em trilhar
caminhos intelectuais e sensitivos mais independentes, pessoais, subjetivos. E,
claro, é a própria mídia que, de muitas formas, replica incessantemente a idéia
de que não seguir as tendências da moda é correr o risco de se ficar isolado.
Paradoxalmente, talvez diante da
evidente solidão instalada no mundo em que hoje vivemos, mais comum nos grandes
centros, vemos surgir um crescente discurso inverso, o do seja-você-mesmo. Esse
discurso é apenas o mercado mais uma vez se adiantando. Perante as evidências
de que a promessa não foi cumprida, ou seja, que não bastou seguir a moda, as
tendências, o que parecia ser o caminho mais seguro, para livrarmo-nos desse
terrível fantasma do isolamento, a estratégia passa a ser a retórica sobre as
possíveis vantagens da solidão, que imediatamente se liga ao consumo dos
produtos customizados, personalizados. Cria-se, dessa forma, a partir da mesma
técnica de pertencimento pelo consumo de determinado produto, um novo
"braço" para continuar alimentando na população em geral essa
sensação de não isolamento. Não que o pertencimento em massa tenha desaparecido,
isso está longe de acontecer, se é que acontecerá um dia. Esse novo
procedimento apenas reforça ainda mais os limites de "pastagem"
humana, impedindo possibilidades recém-surgidas de fuga. E, dessa forma,
continua inibindo o indivíduo a aventurar-se em si mesmo, o que pode colocar em
risco as estratégias de dominação em massa.
Há, no entanto, nas artes um
porto-seguro que parece ser mais legítimo, justamente por levar o indivíduo a
ancorar-se, não em um produto externo e inanimado ou a ideologias de inclusão,
mas em si próprio. No caso da música, por exemplo, é observável que quando se
passa a conhecer noções básicas de harmonia, ritmo e melodia, quando se cria
essa base mínima, universos sonoros, mesmo de algum modo desconhecidos,
tornam-se curiosos, convidativos, deixam de ser perigosos ou ofensivos ao
pertencimento. Não sendo mais tão desconhecidos, é possível com eles o
indivíduo se deleitar, perceber as novidades sonoras atuando sobre si mesmo,
causando transformações, geralmente até abstratas, mas supostamente benéficas,
além de curiosas, indicadoras de novos caminhos, novos universos e sabores.
Talvez a absorção de conhecimento
musical seja apenas um processo de destraumatização cultural, uma vez que um
sem número de pessoas leigas, supostamente não educadas em música, são capazes
de (e estão aptas a) se deleitar com qualquer tipo de música dita mais culta.
Surge, portanto, com a educação
musical, isso que podemos chamar de "porto-seguro da arte", sendo a
arte não o produto ao qual o indivíduo irá se ancorar, mas somente o
instrumento que, por meio da beleza, de paisagens sonoras e semânticas, o
levará a um maior contato consigo mesmo, com sua subjetividade, com sua
originalidade. Somos todos seres únicos, com nossas histórias de vida únicas,
nossas cargas culturais e imagísticas, e nossas configurações psíquicas únicas.
E é certo que nos tornamos mais criativos e mais íntegros em nosso viver,
quanto mais nos aproximamos de nós mesmos, desse ser único, não no sentido
egoico, mas no do autoconhecimento, da experimentação desses movimentos
intelectuais, emotivos e sensíveis que nos possibilitam afirmar nossa
existência no mundo. E, sem dúvida, a partir da sensibilização promovida por
essas evoluções e suas nuances, olhar para o outro de um jeito mais próximo a
como olhamos para nós mesmos.
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