Letras de música carregam
múltiplos elementos propícios à apreciação e compreensão textual. Podem também
responder a um amplo espectro de necessidades educativas, não apenas para se
trabalhar as mais diversas ferramentas gramaticais da Língua Portuguesa - e
para esse fim vêm sendo cada vez mais utilizadas - como para despertar no aluno
o interesse por outros gêneros literários, menos próximos de si cotidianamente.
Nesse sentido, as letras de canções podem ser uma ponte efetiva para que o
aluno descubra os prazeres e interesses aos quais leitores e produtores
textuais assíduos geralmente se apegam: beleza estética e semântica, emoção,
conhecimento e autoconhecimento.
Uma vez inseridas no contexto
escolar, as letras de música, portanto, não podem perder seu caráter afetivo,
sendo utilizadas como meros exemplos, por mais que esses exemplos estejam agora
contextualizados - ao contrário de práticas ainda recentes, que nem mesmo
atentavam para a necessidade de contextualização. E de modo algum podem
continuar a ser analisadas de forma superficial, somente a partir de
interpretações subjetivas do professor e mesmo apenas por meio de análises
semióticas. Esse todo construído apresenta elementos como conceituação
temática, naturalidade e sonoridade das palavras, reorganizações gramaticais,
ritmo, escolhas vocabulares, universos léxicos e semânticos, redes de múltiplas
concatenações, léxicas e semânticas, sinonímicas e antonímicas, transversais e
radiais, além de continuidade, motz el son, possibilidades de leitura
subjetiva, tipos de estruturas, lineares e não-lineares. E ainda, formas de
narrativa, por exemplo, por meio de imagens ou de cenas, tipos de linguagem,
como linguagem direta, reflexiva, deconstrutiva - assim, sem o "s",
formas sintéticas, signos ocultos, somente para citar algumas formas de análise
que comumente não são exploradas no ensino escolar. Essa análise mais completa,
porém sensível, do que está contido nos textos, além de outros tantos
benefícios que serão aqui evidenciados, leva o aluno a perceber as várias maneiras
de se olhar para um objeto, enriquecendo, assim, sua forma de pensar e de olhar
para o mundo que o cerca. Mas para que esses benefícios de fato alcancem os
alunos, os professores precisam conhecer mais a fundo as possibilidades
educativas da poética musical.
Voltando à questão do mero
exemplo, não basta apenas inserir canções e suas letras - o que vale também
para o caso de poemas - por mais afetivas que estas possam ser aos alunos, para
logo após se fazer análises tecnicistas-gramaticais, ou meramente subjetivas,
semióticas, excessivamente cartesianas e racionais, deixando de aproveitar o
potencial lúdico, estético, intuitivo e criativo do material apresentado. Este
é um exemplo de desafetivação. Perde-se, desse modo, muito rapidamente, o
motivo da proposta. Se uma das premissas dessa utilização é o caráter lúdico e
afetivo que as letras de música geralmente possuem, não se pode minar essas
qualidades ao se tentar construir ou extrair conhecimentos. O que não impede
que se façam discussões em torno de idéias e assuntos extraídos de uma letra de
canção ou um poema. Mas mesmo nestes casos é importante que antes o aluno
absorva ao máximo o conteúdo artístico, lúdico e sensível dos objetos.
É, sem dúvida, especial desafio
trabalhar conteúdos escolares ao mesmo tempo que se tenta incentivar o gosto
pela leitura e pela boa produção de textos, além de sensibilizar o estudante
para outras questões semânticas e estéticas, sensíveis e intelectuais.
É preciso, portanto, antes de
tudo, chamar atenção do educando para a beleza das palavras, para a sonoridade,
a estética, o ritmo, para a visão das estruturas, que é base para se enxergar o
todo. Deve-se também atrair a sensibilidade do aluno para a construção do
pensamento, do pensamento como sentimento, como inteligência, como postura
diante do mundo. E para os entrelaçamentos sonoros e semânticos, para as
sensações concomitantes, anímicas, físicas, imagísticas que um texto pode
despertar. E ainda, para o que podem ser verdades e inverdades numa
argumentação, para a ética, para a beleza das sínteses, para as desconstruções
gramaticais, que por si mesmas já são uma forma outra de se olhar para o mundo.
E, por fim, para o aproveitamento espacial, o equilíbrio, em outras palavras,
para tudo que não seja inflexível, que não seja regra, que não esteja pronto,
que possa conectar o indivíduo a si mesmo, ligá-lo diretamente às
possibilidades de sua subjetividade e criatividade, e fazê-lo querer mergulhar
nesse jogo, vivenciá-lo, experimentá-lo, dentro, fora e para além de si.
Perceber, por exemplo, o que é um
dígrafo num texto, não é experiência de modo algum sensível, subjetiva. A
questão já está colocada. A resposta já está dada. É muito diferente, no
entanto, a experiência de se descobrir cacófatos e semicacófatos. A não ser em
casos mais evidentes, por exemplo, de palavras que, unidas, formam uma terceira
palavra, o mapeamento de cacófatos e semicacófatos é uma experiência subjetiva,
pois o indivíduo decide o que é ou não o semicacófato ou o cacófato,
conquistando ele mesmo a percepção do que pode afetar a qualidade de um texto.
E, por isso, mais que uma experiência, essa é uma prática estética.
Segundo o paleantropólogo André
Leory-Gourban, os primeiros fundamentos da escrita nascem das pinturas
rupestres, há trinta mil anos. E já aliados a ela estão o senso estético, o
lúdico, o sagrado. Ou seja, o próprio senso estético parece ser o fenômeno
inaugural da escrita. É esse lugar, portanto, que precisamos revisitar, a fim
de despertar no aluno o desejo de se adentrar nesse universo, que é o próprio
formador de suas crenças, de seus prazeres e sofrimentos, de suas vontades. O
ser humano é um ser construído em grande parte por palavras, e, muitas delas,
escritas. Por que se quer rejeitar o que é tão constituinte de si mesmo?
Arrisco-me a dizer que o ensino da língua, como ainda hoje se dá, é algo
traumatizante ao aluno.
É somente desse modo, portanto, apresentando ao
aluno elementos próprios da beleza, a partir de uma proposta efetivamente
lúdica e sensível, que se é possível alcançar o máximo rendimento na aplicação
das letras de música, e mesmo da poesia, no cotidiano escolar, no sentido de se
estabelecer uma relação concreta, afetiva e duradoura entre o aluno e a Língua
Portuguesa, em sua forma escrita ou falada.
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