quinta-feira, 10 de julho de 2014

Formação de leitores e produtores textuais

Letras de música carregam múltiplos elementos propícios à apreciação e compreensão textual. Podem também responder a um amplo espectro de necessidades educativas, não apenas para se trabalhar as mais diversas ferramentas gramaticais da Língua Portuguesa - e para esse fim vêm sendo cada vez mais utilizadas - como para despertar no aluno o interesse por outros gêneros literários, menos próximos de si cotidianamente. Nesse sentido, as letras de canções podem ser uma ponte efetiva para que o aluno descubra os prazeres e interesses aos quais leitores e produtores textuais assíduos geralmente se apegam: beleza estética e semântica, emoção, conhecimento e autoconhecimento.
 
Uma vez inseridas no contexto escolar, as letras de música, portanto, não podem perder seu caráter afetivo, sendo utilizadas como meros exemplos, por mais que esses exemplos estejam agora contextualizados - ao contrário de práticas ainda recentes, que nem mesmo atentavam para a necessidade de contextualização. E de modo algum podem continuar a ser analisadas de forma superficial, somente a partir de interpretações subjetivas do professor e mesmo apenas por meio de análises semióticas. Esse todo construído apresenta elementos como conceituação temática, naturalidade e sonoridade das palavras, reorganizações gramaticais, ritmo, escolhas vocabulares, universos léxicos e semânticos, redes de múltiplas concatenações, léxicas e semânticas, sinonímicas e antonímicas, transversais e radiais, além de continuidade, motz el son, possibilidades de leitura subjetiva, tipos de estruturas, lineares e não-lineares. E ainda, formas de narrativa, por exemplo, por meio de imagens ou de cenas, tipos de linguagem, como linguagem direta, reflexiva, deconstrutiva - assim, sem o "s", formas sintéticas, signos ocultos, somente para citar algumas formas de análise que comumente não são exploradas no ensino escolar. Essa análise mais completa, porém sensível, do que está contido nos textos, além de outros tantos benefícios que serão aqui evidenciados, leva o aluno a perceber as várias maneiras de se olhar para um objeto, enriquecendo, assim, sua forma de pensar e de olhar para o mundo que o cerca. Mas para que esses benefícios de fato alcancem os alunos, os professores precisam conhecer mais a fundo as possibilidades educativas da poética musical.
 
Voltando à questão do mero exemplo, não basta apenas inserir canções e suas letras - o que vale também para o caso de poemas - por mais afetivas que estas possam ser aos alunos, para logo após se fazer análises tecnicistas-gramaticais, ou meramente subjetivas, semióticas, excessivamente cartesianas e racionais, deixando de aproveitar o potencial lúdico, estético, intuitivo e criativo do material apresentado. Este é um exemplo de desafetivação. Perde-se, desse modo, muito rapidamente, o motivo da proposta. Se uma das premissas dessa utilização é o caráter lúdico e afetivo que as letras de música geralmente possuem, não se pode minar essas qualidades ao se tentar construir ou extrair conhecimentos. O que não impede que se façam discussões em torno de idéias e assuntos extraídos de uma letra de canção ou um poema. Mas mesmo nestes casos é importante que antes o aluno absorva ao máximo o conteúdo artístico, lúdico e sensível dos objetos.
 
É, sem dúvida, especial desafio trabalhar conteúdos escolares ao mesmo tempo que se tenta incentivar o gosto pela leitura e pela boa produção de textos, além de sensibilizar o estudante para outras questões semânticas e estéticas, sensíveis e intelectuais.
 
É preciso, portanto, antes de tudo, chamar atenção do educando para a beleza das palavras, para a sonoridade, a estética, o ritmo, para a visão das estruturas, que é base para se enxergar o todo. Deve-se também atrair a sensibilidade do aluno para a construção do pensamento, do pensamento como sentimento, como inteligência, como postura diante do mundo. E para os entrelaçamentos sonoros e semânticos, para as sensações concomitantes, anímicas, físicas, imagísticas que um texto pode despertar. E ainda, para o que podem ser verdades e inverdades numa argumentação, para a ética, para a beleza das sínteses, para as desconstruções gramaticais, que por si mesmas já são uma forma outra de se olhar para o mundo. E, por fim, para o aproveitamento espacial, o equilíbrio, em outras palavras, para tudo que não seja inflexível, que não seja regra, que não esteja pronto, que possa conectar o indivíduo a si mesmo, ligá-lo diretamente às possibilidades de sua subjetividade e criatividade, e fazê-lo querer mergulhar nesse jogo, vivenciá-lo, experimentá-lo, dentro, fora e para além de si.
 
Perceber, por exemplo, o que é um dígrafo num texto, não é experiência de modo algum sensível, subjetiva. A questão já está colocada. A resposta já está dada. É muito diferente, no entanto, a experiência de se descobrir cacófatos e semicacófatos. A não ser em casos mais evidentes, por exemplo, de palavras que, unidas, formam uma terceira palavra, o mapeamento de cacófatos e semicacófatos é uma experiência subjetiva, pois o indivíduo decide o que é ou não o semicacófato ou o cacófato, conquistando ele mesmo a percepção do que pode afetar a qualidade de um texto. E, por isso, mais que uma experiência, essa é uma prática estética.
 
Segundo o paleantropólogo André Leory-Gourban, os primeiros fundamentos da escrita nascem das pinturas rupestres, há trinta mil anos. E já aliados a ela estão o senso estético, o lúdico, o sagrado. Ou seja, o próprio senso estético parece ser o fenômeno inaugural da escrita. É esse lugar, portanto, que precisamos revisitar, a fim de despertar no aluno o desejo de se adentrar nesse universo, que é o próprio formador de suas crenças, de seus prazeres e sofrimentos, de suas vontades. O ser humano é um ser construído em grande parte por palavras, e, muitas delas, escritas. Por que se quer rejeitar o que é tão constituinte de si mesmo? Arrisco-me a dizer que o ensino da língua, como ainda hoje se dá, é algo traumatizante ao aluno.
 
É somente desse modo, portanto, apresentando ao aluno elementos próprios da beleza, a partir de uma proposta efetivamente lúdica e sensível, que se é possível alcançar o máximo rendimento na aplicação das letras de música, e mesmo da poesia, no cotidiano escolar, no sentido de se estabelecer uma relação concreta, afetiva e duradoura entre o aluno e a Língua Portuguesa, em sua forma escrita ou falada.

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