Um texto muitas vezes começa pelo
ritmo, pela métrica que nos alcança, vinda não se sabe de onde, mas exigindo
palavras. As palavras, por sua vez, em princípio ilhas de sonoridade, passam a
exigir sentidos. Pois é dessa maneira que também se iniciam livros, poemas,
crônicas, letras de canção e até relatórios.
Este é, portanto, um fenômeno
estético, quase uma sensação física, essa dança de pré-palavras vindas de um
lugar desconhecido que muitas vezes entendemos como inspiração, e alguns
pesquisadores da criatividade entendem como pré-disposição a combinações
aleatórias até que algo faça sentido. Mas seja qual for o caso, é importante
que saibamos: é possível alimentar, enriquecer, potencializar esse
"lugar" com elementos e percepções rítmicas, bem como com outros
tantos elementos que participam da criação textual. O que, sem dúvida, só fará
aumentar nossa capacidade criativa.
Podemos dizer, num certo sentido,
que o ritmo contém a métrica, inicia-se nela, mas a ultrapassa. Especialmente
nos casos de textos em prosa, quando essa métrica perde quase toda sua
visibilidade estrutural e torna-se a própria respiração do texto, embora
continue influenciando em alto grau a comunicabilidade e a atratividade do que
é escrito. Estando o ritmo num texto de algum modo empobrecido ou acidentado,
perde-se muito a qualidade do que é dito.
Para os dois casos, tanto de se
iniciar um texto por influência do ritmo, como se ter domínio desse ritmo para
melhor comunicar um enunciado, a percepção e a absorção de métricas de letras
de música e poemas são maneiras lúdicas, sensíveis e afetivas de se potencializar
essas capacidades. Isso, porque, esses gêneros textuais apresentam não apenas
incontáveis exemplos das mais variadas metricidades, mas ainda de momentos em
que a métrica, visível, vai se transformando em ritmo, já algo invisível aos
olhos, mas sempre perceptível ao senso estético e mesmo ao entendimento físico,
especialmente quanto à fluidez e às nuances de respiração do texto.
Com letras de música e poemas é
possível até se contar "histórias métricas", de forma lúdica e
divertida. Essa brincadeira pode ser feita isolando-se a métrica de um texto,
retirando-se as palavras, mas ainda se mantendo a parte rítmica. E depois
comunicar essa rítmica como quem lê um texto qualquer, mas com o uso de somente
uma única consoante escolhida, de preferência uma consoante de ataque, por
exemplo, um T. Ou seja, um T substituindo cada sílaba; ou sílaba melódica. Além
de neste caso se ter a visualização apenas da métrica contida no texto, em cada
verso, em cada estrofe e na estrutura do texto como um todo, a brincadeira
ainda se estende para um jogo de inflexão sonora. Uma simples brincadeira como
essa enriquece nossa visão rítmica sobre um texto, qualquer texto; embora seja
este apenas um pequeno exemplo.
Pois é essa noção que compreende e
percebe, estética e fisicamente, a métrica e o ritmo, que se há também de
desenvolver no indivíduo produtor de escrita. Esses elementos, além do elemento
sonoro, são os pilares da escrita e da própria fala, antes de qualquer
proposição semântica que se queira enunciar, antes de qualquer construção
gramatical, e antes até da palavra, pois nossa noção de som e de ritmo é
anterior à linguagem falada, e, de muitos modos, base para sua existência. Sem
esses elementos, portanto, não há argumento que bem se sustente, também por ser
o indivíduo humano esse complexo, pragmático e lógico, mas não menos lúdico e
sensível receptor e comunicador de informações. A própria linguagem é uma
construção lúdica, emocional e, mais que isso, jamais está pronta. É sempre, e
está sempre por ser, reinaugurada em si mesma, e com isso inventando,
reorganizando e redimensionando novos sentidos e desejos, novas visões e
cognições, novos mundos, dentro e fora de nós. E, assim como seus enunciados
semânticos e suas construções gramaticais, e estéticas, suas possibilidades
rítmicas são infinitas.
Por fim, se na produção textual,
como dissemos, a métrica e o ritmo têm esse papel também sedutor, atrativo,
essa mesma atratividade estará presente no momento da leitura. Portanto, uma
vez que se potencialize tal sensibilidade no indivíduo, certamente haverá nisso
alguma contribuição para a formação de mais leitores. Ou seja, torna-se o ritmo
um elemento a mais para aproximar esse indivíduo da leitura. E qualquer leitor
mais assíduo sabe ser esta afirmação uma realidade.
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