quinta-feira, 10 de julho de 2014

Poética Musical e a música nas escolas

"Há uma inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades e problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários" (Edgar Morin).
 
Em 2012 voltou a obrigatoriedade da matéria de Música nas escolas. Milhares de professores foram e continuam sendo capacitados para preencher as vagas. O ensino é focado, inicialmente, na musicalização básica, em noções primárias de ritmo, melodia e harmonia. Mas, o Brasil é por tradição um país de compositores e ouvintes de canção, em que a música está sempre associada a uma letra. E mesmo sendo o foco inicial do ensino a musicalização grosso modo, os professores se utilizam amplamente da música brasileira, para melhor absorção dos conteúdos por parte dos alunos.
 
O professor, todavia, geralmente não possui uma capacitação específica quanto às letras de nossas canções, esse riquíssimo acervo cultural, de tantos detalhes técnicos, que pode deixar de ser transmitido, ou mesmo ser ministrado de forma equivocada ao aluno, por falta de conhecimento específico do educador. O estudo de Poética Musical, portanto, torna-se complemento indispensável para a nova matéria, que deve ser gerida com responsabilidade, também no sentido de se aproveitar ao máximo seu teor, bem como sua capacidade transversal. Não se é mais possível trabalhar com conhecimentos estanques, como se a vida fosse um sem número de compartimentos isolados. Lidar com a canção como um todo, composta de música e texto em sua forma gráfica, é uma excelente oportunidade de conectar conhecimentos, sensíveis e intelectuais.
 
A Educadora Musical Alicia Maria Almeida Loureiro, pianista, licenciada em Música e especialista em Educação Musical pela UFMG, além de Mestre em Educação pela PUC, que vem estudando e acompanhando há muitos anos a disciplina Música no Contexto da Escola Regular, observa: “Letra de música é um tipo de texto e como tal comporta um tratamento semelhante de interpretação e requer os mesmos cuidados com a dosagem do vocabulário e com a observação das características da linguagem política”. E avança em sua perspectiva: “A música popular fala dos sentimentos do povo e da realidade em que vivemos...Não se trata de usar a canção de forma moralizante para ensinar o certo e o errado; as palavras da canção estão aí para serem saboreadas e discutidas, podemos concordar, discordar, fazer observações adicionais, lembrar fatos evocados pela emoção, curtir a poesia como forma de dizer o que ultrapassa o sentido normal das palavras, etc. E se a canção de fato toca os aspectos importantes da vida, haverá algo da experiência religiosa que estará relacionada com ela.”
 
Desse modo, a partir da canção, música e letra, pode-se trabalhar junto ao aluno, concomitantemente, um espectro mais amplo de cognições, não apenas na leitura sensível e semântica, e na fruição estética do objeto, mas ainda no sentido da criação.
 
Produção
 
As canções abaixo, por exemplo, foram compostas há mais de três décadas, em salas de aula, com crianças de seis e sete anos de idade, na Escola Parque, Brasília – DF:
 
Maria fumaça
 
“Lá vai a maria fumaça, levando gente a todo lugar
corre corre maria fumaça no seu trilho a apitar
vai levando, vai levando essa gente pra todo lugar
vai deixando para trás a fumacinha a bailar
tchu tchu ru tchu tchu / tchu tchu ru tchu ru tchu tchu
vou correndo bem depressa encontrar meu bem querer (repete)
 
Moleque
 
“Olha o moleque, pega o danado, pensa que é gente, vive emproado (repete)
moleque descalço não sabe onde pisa
nos lábios um sorriso, seus olhos são tristes
moleque sem vergonha, que quer se defender
sua vida não é fácil, ele tem que aprender”
 
Essa prática só foi possível pelo fato dos professores possuírem conhecimentos específicos sobre letras de música e um mínimo de desenvoltura melódica e rítmica. A partir de temáticas e linhas melódicas iniciais apresentadas pelos professores - embora essas idéias poderiam ter sido apresentadas pelos próprios alunos - os alunos iam sugerindo outros fragmentos melódicos e palavras ou frases, que se incorporavam à canção.
 
Após a produção da canção foi feita uma análise geral do resultado. Nessas letras, tão simples, há muitas informações que podem ser analisadas, de modo também simples, porém efetivo; análises de linguagem e de outros aspectos, semânticos, afetivos, sociais, entre outros. O que incentiva os alunos a olhar de múltiplas formas para um determinado objeto. Essas informações podem ser debatidas com os alunos de maneira muitas vezes divertida, de modo algum tirando o caráter lúdico, embora educativo, da proposição.
 
A produção de letra e música pode ser tão natural quanto se tocar um instrumento de modo rudimentar ou mesmo adquirir noções básicas de ritmo e melodia. Muitas crianças compõem suas próprias canções, letra e melodia. Basta que conexões propícias a esse feitio sejam acionadas desde cedo. E é desnecessário dizer que esse tipo de prática desenvolve a criatividade de modo amplo e geral, bem como múltiplas outras qualidades cognitivas.
 
A escola e o problema da absorção cultural acrítica
 
Desde muito cedo as crianças apreendem canções infantis e adultas, geralmente com muito pouca ou nenhuma avaliação crítica do que ouvem e ou replicam para si mesmas e para o mundo a sua volta. E muitas dessas canções são apreendidas e replicadas nas próprias escolas.
 
Exemplificamos aqui um caso comum: estudantes de oito anos de idade, matriculados em escola particular na cidade de Maringá- PR, ensaiaram, juntamente com sua professora, ao longo de cinco aulas de Artes, a canção "É preciso saber viver" (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), para apresentação aos pais em data comemorativa na escola.
 
Questionados em pesquisa sobre o que entendiam dos quatro primeiros versos da canção, não souberam responder. Segundo os alunos, ao longo de cinco aulas de ensaio, a professora que ensinou a música nada comentou sobre a letra. Possivelmente, a educadora não parou para pensar, de modo mais aprofundado, se a letra era condizente com a idade dos alunos, nem refletiu sobre o significado estrito do que cantavam. É muito provável que ela mesma não possua qualquer conhecimento técnico sobre letras de música. No entanto, lida cotidianamente com esse objeto junto aos seus alunos.

Os versos a seguir parecem semântica, semiótica e silogicamente simples, mas não são:
 
(É preciso saber viver - Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
 
"Quem espera que a vida seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco ou morrer na solidão"
 
É desse modo que a própria escola tende a contribuir para que letras de canções e outros conteúdos sejam internalizados e replicados por nossas crianças, sem nenhum discernimento crítico.
 
A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, no texto de apresentação das Propostas Curriculares de 2013 para Língua Portuguesa, alerta: “Sem conhecer bem o tema, trabalhar com gêneros pode trazer mais problemas do que soluções. Isso nos desafia a levar essa língua para a sala de aula o mais próximo possível de como ela é surpreendida em seu uso cotidiano, por vezes deslocando-a do ideal de correção apresentado em guias gramaticais”.

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