"Há uma inadequação cada vez
mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados,
compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades e problemas
cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais,
transnacionais, globais, planetários" (Edgar Morin).
Em 2012 voltou a obrigatoriedade
da matéria de Música nas escolas. Milhares de professores foram e continuam
sendo capacitados para preencher as vagas. O ensino é focado, inicialmente, na
musicalização básica, em noções primárias de ritmo, melodia e harmonia. Mas, o
Brasil é por tradição um país de compositores e ouvintes de canção, em que a
música está sempre associada a uma letra. E mesmo sendo o foco inicial do
ensino a musicalização grosso modo, os professores se utilizam amplamente da
música brasileira, para melhor absorção dos conteúdos por parte dos alunos.
O professor, todavia, geralmente
não possui uma capacitação específica quanto às letras de nossas canções, esse
riquíssimo acervo cultural, de tantos detalhes técnicos, que pode deixar de ser
transmitido, ou mesmo ser ministrado de forma equivocada ao aluno, por falta de
conhecimento específico do educador. O estudo de Poética Musical, portanto,
torna-se complemento indispensável para a nova matéria, que deve ser gerida com
responsabilidade, também no sentido de se aproveitar ao máximo seu teor, bem como
sua capacidade transversal. Não se é mais possível trabalhar com conhecimentos
estanques, como se a vida fosse um sem número de compartimentos isolados. Lidar
com a canção como um todo, composta de música e texto em sua forma gráfica, é
uma excelente oportunidade de conectar conhecimentos, sensíveis e intelectuais.
A Educadora Musical Alicia Maria
Almeida Loureiro, pianista, licenciada em Música e especialista em Educação
Musical pela UFMG, além de Mestre em Educação pela PUC, que vem estudando e
acompanhando há muitos anos a disciplina Música no Contexto da Escola Regular,
observa: “Letra de música é um tipo de texto e como tal comporta um tratamento
semelhante de interpretação e requer os mesmos cuidados com a dosagem do
vocabulário e com a observação das características da linguagem política”. E
avança em sua perspectiva: “A música popular fala dos sentimentos do povo e da
realidade em que vivemos...Não se trata de usar a canção de forma moralizante
para ensinar o certo e o errado; as palavras da canção estão aí para serem
saboreadas e discutidas, podemos concordar, discordar, fazer observações
adicionais, lembrar fatos evocados pela emoção, curtir a poesia como forma de
dizer o que ultrapassa o sentido normal das palavras, etc. E se a canção de
fato toca os aspectos importantes da vida, haverá algo da experiência religiosa
que estará relacionada com ela.”
Desse modo, a partir da canção,
música e letra, pode-se trabalhar junto ao aluno, concomitantemente, um
espectro mais amplo de cognições, não apenas na leitura sensível e semântica, e
na fruição estética do objeto, mas ainda no sentido da criação.
Produção
As canções abaixo, por exemplo,
foram compostas há mais de três décadas, em salas de aula, com crianças de seis
e sete anos de idade, na Escola Parque, Brasília – DF:
Maria fumaça
“Lá vai a maria fumaça, levando
gente a todo lugar
corre corre maria fumaça no seu
trilho a apitar
vai levando, vai levando essa
gente pra todo lugar
vai deixando para trás a fumacinha
a bailar
tchu tchu ru tchu tchu / tchu tchu
ru tchu ru tchu tchu
vou correndo bem depressa
encontrar meu bem querer (repete)
Moleque
“Olha o moleque, pega o danado,
pensa que é gente, vive emproado (repete)
moleque descalço não sabe onde
pisa
nos lábios um sorriso, seus olhos
são tristes
moleque sem vergonha, que quer se
defender
sua vida não é fácil, ele tem que
aprender”
Essa prática só foi possível pelo
fato dos professores possuírem conhecimentos específicos sobre letras de música
e um mínimo de desenvoltura melódica e rítmica. A partir de temáticas e linhas
melódicas iniciais apresentadas pelos professores - embora essas idéias
poderiam ter sido apresentadas pelos próprios alunos - os alunos iam sugerindo
outros fragmentos melódicos e palavras ou frases, que se incorporavam à canção.
Após a produção da canção foi
feita uma análise geral do resultado. Nessas letras, tão simples, há muitas
informações que podem ser analisadas, de modo também simples, porém efetivo;
análises de linguagem e de outros aspectos, semânticos, afetivos, sociais,
entre outros. O que incentiva os alunos a olhar de múltiplas formas para um
determinado objeto. Essas informações podem ser debatidas com os alunos de
maneira muitas vezes divertida, de modo algum tirando o caráter lúdico, embora
educativo, da proposição.
A produção de letra e música pode
ser tão natural quanto se tocar um instrumento de modo rudimentar ou mesmo
adquirir noções básicas de ritmo e melodia. Muitas crianças compõem suas
próprias canções, letra e melodia. Basta que conexões propícias a esse feitio
sejam acionadas desde cedo. E é desnecessário dizer que esse tipo de prática
desenvolve a criatividade de modo amplo e geral, bem como múltiplas outras
qualidades cognitivas.
A escola e o problema da absorção
cultural acrítica
Desde muito cedo as crianças
apreendem canções infantis e adultas, geralmente com muito pouca ou nenhuma
avaliação crítica do que ouvem e ou replicam para si mesmas e para o mundo a
sua volta. E muitas dessas canções são apreendidas e replicadas nas próprias
escolas.
Exemplificamos aqui um caso comum:
estudantes de oito anos de idade, matriculados em escola particular na cidade
de Maringá- PR, ensaiaram, juntamente com sua professora, ao longo de cinco
aulas de Artes, a canção "É preciso saber viver" (Roberto Carlos/Erasmo
Carlos), para apresentação aos pais em data comemorativa na escola.
Questionados em pesquisa sobre o
que entendiam dos quatro primeiros versos da canção, não souberam responder.
Segundo os alunos, ao longo de cinco aulas de ensaio, a professora que ensinou
a música nada comentou sobre a letra. Possivelmente, a educadora não parou para
pensar, de modo mais aprofundado, se a letra era condizente com a idade dos
alunos, nem refletiu sobre o significado estrito do que cantavam. É muito
provável que ela mesma não possua qualquer conhecimento técnico sobre letras de
música. No entanto, lida cotidianamente com esse objeto junto aos seus alunos.
Os versos a seguir parecem
semântica, semiótica e silogicamente simples, mas não são:
(É preciso saber viver - Roberto Carlos
/ Erasmo Carlos)
"Quem espera que a vida seja
feita de ilusão
Pode até ficar maluco ou morrer na
solidão"
É desse modo que a própria escola
tende a contribuir para que letras de canções e outros conteúdos sejam
internalizados e replicados por nossas crianças, sem nenhum discernimento
crítico.
A Secretaria de Educação do Estado
de São Paulo, no texto de apresentação das Propostas Curriculares de 2013 para
Língua Portuguesa, alerta: “Sem conhecer bem o tema, trabalhar com gêneros pode
trazer mais problemas do que soluções. Isso nos desafia a levar essa língua
para a sala de aula o mais próximo possível de como ela é surpreendida em seu
uso cotidiano, por vezes deslocando-a do ideal de correção apresentado em guias
gramaticais”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário