quinta-feira, 10 de julho de 2014

Interpretação de textos

"Uma das características que empobrecem o ensino médio da língua materna é a pouca atenção reservada ao estudo da significação". ILARI, Rodolfo (2001) Introdução à Semântica. Brincando com a Gramática. São Paulo: Contexto.
 
É o que ainda acontece em todos os graus escolares, do Fundamental I ao ensino universitário. E não bastasse a dificuldade de se analisar os significados em textos objetivos, deparamo-nos hoje também com a linguagem subjetiva, o universo hipertextual e o fortalecimento das imagens como forma de comunicação, ambientes nos quais os significados encontram-se muito mais abertos e não raras as vezes totalmente abertos à interpretação individual. Surge, portanto, a pergunta: como interpretar os significados de um texto? Mas antes de responder a essa questão, há outra mais urgente: o que é significado ou signo em um texto?
 
Para Charles Pierce, o signo, num certo sentido, é algo que "sensibiliza e estimula a consciência". Essa idéia à primeira vista pode nos levar a crer que basta um enunciado sensibilizar ou estimular a consciência e poderá ser chamado de signo. Mas Humberto Eco entende por signo aquilo que “à base de uma convenção social previamente aceita, possa ser entendido como algo que está no lugar de outra coisa“. Esse conceito tende a cercear as possibilidades interpretativas ao nos dizer que um signo, para sê-lo, precisa ser reconhecido por uma comunidade. Embora, apenas para os mais otimistas Eco pareça dar algum espaço à subjetividade ao afirmar que "...cada interpretante não só retraduz o “objeto imediato“ ou conteúdo do signo, mas amplia sua compreensão“. Voltando às idéias de Pierce, agora nas palavras de Isaac Epstein: "um signo é um signo quando há alguém que possa interpretá-lo como signo de algo". Esse argumento reconhece plenamente o sujeito, mas ainda não o capacita a fazer sozinho suas próprias interpretações.
 
Mas, no caso de um texto de linguagem subjetiva, quando não há a intenção de se estabelecer "verdades", ou da interpretação de uma imagem pura e simples, sendo que esses objetos são cada vez mais constantes no cotidiano da recepção de informação e construção de conhecimento,  a que um leitor poderia se apegar semioticamente? Num texto em que há tanto uma possibilidade de leitura quanto outra inversa, ou ainda outras radiais, qual interpretação seria correta? O que o autor quis dizer quando o próprio autor nada pretendeu afirmar, pelo contrário, buscou justamente deixar abertos os significados para que cada indivíduo pudesse interpretar a seu modo, a partir de suas experiências únicas, sua história de vida, formação psíquica e cultural singulares?
 
Isso quer dizer que em muitos casos a interpretação objetiva de um texto pode não ser o mais importante. Sim, existem as bulas de remédio, os manuais, as ciências exatas. Mas há também os romances, os poemas, as letras de canção, as crônicas e ainda os textos comerciais e jornalísticos; diante desses últimos pode ser até arriscado se querer interpretar objetivamente o que está sendo dito. Não podemos, portanto, moldar o pensamento do aluno dessa forma, nem mesmo como estratégia transitória. É preciso preparar e encorajar esse aluno desde cedo para uma leitura independente, fortalecendo ao máximo seu potencial criativo, seu caráter único. É necessário municiá-lo o quanto antes com instrumentos suficientes para que ele possa fazer sua própria leitura de qualquer texto, não apenas imprimindo nisso sua subjetividade, como usando-a para extrapolar os limites semióticos, na direção de trazer à tona novas concepções semânticas e estéticas, no momento da leitura mesma. Essa não é apenas outra possibilidade criativa de se trabalhar com leitura e interpretação, mas a própria maneira como atuam as mentes mais criativas e inovadoras do planeta. Então por que não queremos dar esse passo adiante, preferindo achatar o indivíduo em suas possibilidades interpretativas?
 
A compreensão semiótica, portanto, não pode ser transmitida por meio de módulos prontos. O que deve ser apresentado ao aluno são os componentes de um texto, de uma linguagem ou de uma elaboração silógica, para que ele mesmo aprenda a montar o seu quebra-cabeça. Ao contrário do que pode parecer, essa é uma estratégia anticartesiana. O que aqui está sendo dito é que não há como se interpretar um texto, especialmente os de caráter mais artístico, separando suas partes, esmiuçando seus sentidos um a um, pois aí se perdem as absorções sensíveis, afetivas, subjetivas e criativas. A semiótica, usada dessa forma cartesiana, no ato da leitura, tende a inibir o que só o sentimento pode traduzir ou mesmo significar. A essência de uma obra artística não será revelada desse modo analítico fragmentado. Na hora da leitura nenhuma análise deverá ser feita, a não ser para se inferir criativamente, quando são geradas novas idéias no passo mesmo dessa leitura. E o aluno deve estar pronto para isso. Deve receber antecipadamente e também de modo mais sensível possível toda a instrução necessária sobre o que pode estar contido nos textos, sobre os sons, as estruturas e os sentidos. Isso deve ser feito se ouvindo música, em rodas de conversa, não no momento da leitura. Deve ser feito para levar o aluno à leitura e não dela se afastar. Do contrário, já deveríamos ter mais leitores no país, não apenas capacitados a ler e escrever, como afetivamente inclinados a esses atos.
 
Enfim, não se pode ensinar a interpretar pois não há aprendizado nisso. Não no sentido de se aprender a aprender, aprender a criar, aprender a transformar. Quanto à falta de percepção diante de um discurso enganador, por exemplo, de um político ou de uma propaganda, é algo que pode estar muito mais ligado à pouca independência de pensamento do que a uma suposta ignorância semiótica. E enquanto as interpretações estiverem nas mãos de apenas alguns, como sempre estiveram, haverá continuidade de domínio ideológico, por menos ideológica que pretenda ser qualquer espécie de análise.
 
Ainda segundo Epstein: "A experiência vivida, o real sentido, percebido ou compreendido, o mundo do real ou do imaginário, das teorias científicas ou dos mitos, enfim, da vigília ou do sonho, é mediado de homem a homem por entes concretos capazes de impressionar nossos sentidos: os signos". Aqui sim, temos a confirmação de que signos não são necessariamente verdades objetivas. Portanto, não podem e não devem ser lidos desse modo. Não se diz aqui de maneira alguma que o diálogo deve ser atenuado para se dar espaço a toda subjetividade e individualidade. Pelo contrário, esse deve ser estimulado de muitas formas, apenas com a observação de que daí não se estabeleçam verdades absolutas, respeitando assim as diferenças, que podem ser gerais, sem qualquer prejuízo para o comunitário. Reconhecer e respeitar as diferenças é o mais puro exercício de flexibilização e tolerância humanas, é de fato saber viver em grupo, é algo que devíamos ter feito desde o começo das sociedades.
 
Últimas considerações sobre interpretação de texto
 
"Acho detestável...a prática da interpretação de texto. Eu me sinto ofendido quando alguém tenta interpretar meu texto...O que a Cecília Meireles queria dizer? Agora, graças à gramática, à hermenêutica, vamos dizer o que a Cecília quis dizer. Mas um poeta nunca queria dizer, ele disse. Está dito...Se eu quisesse dizer aquilo, teria dito aquilo e não o que eu disse". (Rubem Alves - em entrevista)
 
"A resposta a um texto não é interpretação, é um outro texto. O que você perguntaria provocado por esse texto?" (Octávio Paz)
 
Quanto à questão da interpretação de textos, essa prática indiscutivelmente cartesiana de fragmentação do todo, resta apenas uma coisa a ser dita; ou apenas reforçada: na leitura textual não se deve interferir, esse é o espaço da subjetividade, do olhar individualizado, da valiosa leitura que uma só pessoa no mundo pode fazer. A leitura é, portanto, o lugar do encontro consigo mesmo, o momento de se compreender a multiplicidade concomitante, a beleza em tempo real, essa que ensina para muito além do que supostamente é o mundo, mas o que somos, quem somos neste mundo. Essa concomitância da integralidade do texto, no que diz respeito à sonoridade, ao ritmo, às imagens que vão se formando em nossas cabeças ou no sentimento, é algo que não se pode perder no momento da leitura, sob nenhum pretexto a favor da interpretação semântica fragmentada. Uma coisa é se chamar a atenção para os elementos já citados. Outra, muito diferente, é tratar o leitor como eterno dependente da interpretação de terceiros. Ninguém, por mais intelectualmente preparado, está autorizado a ler pelo outro. Essa é a primeira artimanha da dominação ideológica e deve ser banida do processo educacional, bem como de qualquer aprendizado ou desenvolvimento cognitivo.

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