"Uma das características que
empobrecem o ensino médio da língua materna é a pouca atenção reservada ao
estudo da significação". ILARI, Rodolfo (2001) Introdução à Semântica.
Brincando com a Gramática. São Paulo: Contexto.
É o que ainda acontece em todos os
graus escolares, do Fundamental I ao ensino universitário. E não bastasse a
dificuldade de se analisar os significados em textos objetivos, deparamo-nos
hoje também com a linguagem subjetiva, o universo hipertextual e o
fortalecimento das imagens como forma de comunicação, ambientes nos quais os
significados encontram-se muito mais abertos e não raras as vezes totalmente
abertos à interpretação individual. Surge, portanto, a pergunta: como
interpretar os significados de um texto? Mas antes de responder a essa questão,
há outra mais urgente: o que é significado ou signo em um texto?
Para Charles Pierce, o signo, num
certo sentido, é algo que "sensibiliza e estimula a consciência".
Essa idéia à primeira vista pode nos levar a crer que basta um enunciado
sensibilizar ou estimular a consciência e poderá ser chamado de signo. Mas
Humberto Eco entende por signo aquilo que “à base de uma convenção social previamente
aceita, possa ser entendido como algo que está no lugar de outra coisa“. Esse
conceito tende a cercear as possibilidades interpretativas ao nos dizer que um
signo, para sê-lo, precisa ser reconhecido por uma comunidade. Embora, apenas
para os mais otimistas Eco pareça dar algum espaço à subjetividade ao afirmar
que "...cada interpretante não só retraduz o “objeto imediato“ ou conteúdo
do signo, mas amplia sua compreensão“. Voltando às idéias de Pierce, agora nas
palavras de Isaac Epstein: "um signo é um signo quando há alguém que possa
interpretá-lo como signo de algo". Esse argumento reconhece plenamente o
sujeito, mas ainda não o capacita a fazer sozinho suas próprias interpretações.
Mas, no caso de um texto de
linguagem subjetiva, quando não há a intenção de se estabelecer
"verdades", ou da interpretação de uma imagem pura e simples, sendo
que esses objetos são cada vez mais constantes no cotidiano da recepção de
informação e construção de conhecimento,
a que um leitor poderia se apegar semioticamente? Num texto em que há
tanto uma possibilidade de leitura quanto outra inversa, ou ainda outras
radiais, qual interpretação seria correta? O que o autor quis dizer quando o
próprio autor nada pretendeu afirmar, pelo contrário, buscou justamente deixar
abertos os significados para que cada indivíduo pudesse interpretar a seu modo,
a partir de suas experiências únicas, sua história de vida, formação psíquica e
cultural singulares?
Isso quer dizer que em muitos
casos a interpretação objetiva de um texto pode não ser o mais importante. Sim,
existem as bulas de remédio, os manuais, as ciências exatas. Mas há também os
romances, os poemas, as letras de canção, as crônicas e ainda os textos
comerciais e jornalísticos; diante desses últimos pode ser até arriscado se
querer interpretar objetivamente o que está sendo dito. Não podemos, portanto, moldar o
pensamento do aluno dessa forma, nem mesmo como estratégia transitória. É
preciso preparar e encorajar esse aluno desde cedo para uma leitura
independente, fortalecendo ao máximo seu potencial criativo, seu caráter único.
É necessário municiá-lo o quanto antes com instrumentos suficientes para que
ele possa fazer sua própria leitura de qualquer texto, não apenas imprimindo
nisso sua subjetividade, como usando-a para extrapolar os limites semióticos,
na direção de trazer à tona novas concepções semânticas e estéticas, no momento
da leitura mesma. Essa não é apenas outra possibilidade criativa de se
trabalhar com leitura e interpretação, mas a própria maneira como atuam as mentes
mais criativas e inovadoras do planeta. Então por que não queremos dar esse
passo adiante, preferindo achatar o indivíduo em suas possibilidades interpretativas?
A compreensão semiótica, portanto,
não pode ser transmitida por meio de módulos prontos. O que deve ser
apresentado ao aluno são os componentes de um texto, de uma linguagem ou de uma
elaboração silógica, para que ele mesmo aprenda a montar o seu quebra-cabeça.
Ao contrário do que pode parecer, essa é uma estratégia anticartesiana. O que
aqui está sendo dito é que não há como se interpretar um texto, especialmente
os de caráter mais artístico, separando suas partes, esmiuçando seus sentidos
um a um, pois aí se perdem as absorções sensíveis, afetivas, subjetivas e
criativas. A semiótica, usada dessa forma cartesiana, no ato da leitura, tende
a inibir o que só o sentimento pode traduzir ou mesmo significar. A essência de
uma obra artística não será revelada desse modo analítico fragmentado. Na hora
da leitura nenhuma análise deverá ser feita, a não ser para se inferir
criativamente, quando são geradas novas idéias no passo mesmo dessa leitura. E
o aluno deve estar pronto para isso. Deve receber antecipadamente e também de
modo mais sensível possível toda a instrução necessária sobre o que pode estar
contido nos textos, sobre os sons, as estruturas e os sentidos. Isso deve ser
feito se ouvindo música, em rodas de conversa, não no momento da leitura. Deve
ser feito para levar o aluno à leitura e não dela se afastar. Do contrário, já
deveríamos ter mais leitores no país, não apenas capacitados a ler e escrever,
como afetivamente inclinados a esses atos.
Enfim, não se pode ensinar a
interpretar pois não há aprendizado nisso. Não no sentido de se aprender a
aprender, aprender a criar, aprender a transformar. Quanto à falta de percepção
diante de um discurso enganador, por exemplo, de um político ou de uma
propaganda, é algo que pode estar muito mais ligado à pouca independência de
pensamento do que a uma suposta ignorância semiótica. E enquanto as interpretações
estiverem nas mãos de apenas alguns, como sempre estiveram, haverá continuidade
de domínio ideológico, por menos ideológica que pretenda ser qualquer espécie
de análise.
Ainda segundo Epstein: "A
experiência vivida, o real sentido, percebido ou compreendido, o mundo do real
ou do imaginário, das teorias científicas ou dos mitos, enfim, da vigília ou do
sonho, é mediado de homem a homem por entes concretos capazes de impressionar
nossos sentidos: os signos". Aqui sim, temos a confirmação de que signos
não são necessariamente verdades objetivas. Portanto, não podem e não devem ser
lidos desse modo. Não se diz aqui de maneira alguma que o diálogo deve ser
atenuado para se dar espaço a toda subjetividade e individualidade. Pelo
contrário, esse deve ser estimulado de muitas formas, apenas com a observação
de que daí não se estabeleçam verdades absolutas, respeitando assim as
diferenças, que podem ser gerais, sem qualquer prejuízo para o comunitário.
Reconhecer e respeitar as diferenças é o mais puro exercício de flexibilização
e tolerância humanas, é de fato saber viver em grupo, é algo que devíamos ter
feito desde o começo das sociedades.
Últimas considerações sobre interpretação
de texto
"Acho detestável...a prática
da interpretação de texto. Eu me sinto ofendido quando alguém tenta interpretar
meu texto...O que a Cecília Meireles queria dizer? Agora, graças à gramática, à
hermenêutica, vamos dizer o que a Cecília quis dizer. Mas um poeta nunca queria
dizer, ele disse. Está dito...Se eu quisesse dizer aquilo, teria dito aquilo e
não o que eu disse". (Rubem Alves - em entrevista)
"A resposta a um texto não é
interpretação, é um outro texto. O que você perguntaria provocado por esse
texto?" (Octávio Paz)
Quanto à questão da interpretação
de textos, essa prática indiscutivelmente cartesiana de fragmentação do todo,
resta apenas uma coisa a ser dita; ou apenas reforçada: na leitura textual não
se deve interferir, esse é o espaço da subjetividade, do olhar individualizado,
da valiosa leitura que uma só pessoa no mundo pode fazer. A leitura é,
portanto, o lugar do encontro consigo mesmo, o momento de se compreender a
multiplicidade concomitante, a beleza em tempo real, essa que ensina para muito
além do que supostamente é o mundo, mas o que somos, quem somos neste mundo.
Essa concomitância da integralidade do texto, no que diz respeito à sonoridade,
ao ritmo, às imagens que vão se formando em nossas cabeças ou no sentimento, é
algo que não se pode perder no momento da leitura, sob nenhum pretexto a favor
da interpretação semântica fragmentada. Uma coisa é se chamar a atenção para os
elementos já citados. Outra, muito diferente, é tratar o leitor como eterno
dependente da interpretação de terceiros. Ninguém, por mais intelectualmente
preparado, está autorizado a ler pelo outro. Essa é a primeira artimanha da
dominação ideológica e deve ser banida do processo educacional, bem como de
qualquer aprendizado ou desenvolvimento cognitivo.
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